terça-feira, novembro 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Novembro 2022

Em Outubro não foi visível qualquer sinal de abrandamento na guerra na Ucrânia, tendo-se mantido afastado qualquer vislumbre de resolução do conflito, quer militar quer diplomaticamente, e, pelo contrário, assiste-se ao seu enraizamento. A comunicação social refere insistentemente uma próxima iniciativa das forças ucranianas, no início de Outubro uma importante ponte que liga a Crimeia ao continente foi alvo de um ataque que provocou extensos danos e as forças russas, por sua vez,  visaram objectivos da infraestrutura ucraniana de produção e distribuição de energia, tendo provocado danos substanciais. No fim do mês, a Federação Russa deu como suspenso o acordo que tem vindo a permitir o trânsito de navios mercantes  para escoamento de cereais, alegando um ataque às unidades navais em Sebastopol que comprometeria a segurança da navegação.

Ao longo do mês também se foram tornando mais habituais referências ao emprego de  armamento nuclear, enquanto as rupturas em dois gasodutos que ligam a Rússia e a Alemanha permaneceram sem que tenha vindo a público qualquer explicação mais fundada do que acusações mútuas ou especulações de observadores.

A inflação foi outra das estrelas do mês, já que parece já rondar os 10% e apresentar uma particular vontade para, também, se expandir e crescer, motivando a reacção do Banco Central Europeu, que aumentou a taxa de juro, motivando interessante discussão e dúvidas em torno da justeza da medida. Considerando vários factores, nos quais o preço da energia se apresenta em lugar destacado, não faltam opiniões que asseguram ser de esperar novos aumentos para breve.

Na Escolar Naval terminou o Concurso de Admissão de Cadetes, tendo os resultados sido publicados em 4 de Outubro, revelando que todas as vagas previstas foram preenchidas (num total de 45), distribuídas pela Classe de Marinha (21), de Fuzileiros (3), de Administração Naval (4), de Engenheiros Navais, ramo de Mecânica (5) e ramo de Armas e Electrónica (8) e Médicos Navais, sendo a nota mais elevada 176,0 e a menor 117,3. Saudamos todos os admitidos, e desejamos que satisfaçam não só as suas expectativas individuais, mas principalmente as da Marinha.

Neste mês de Novembro lembramos os aniversários dos seguintes elementos do CR:

12NOV (1944) Jorge Augusto Pires
14NOV (1945) Arménio Carvalho Carlos Fidalgo
27NOV (1945) Álvaro Amado Bordalo Ventura

A todos um abraço de parabéns.

Lembramos igualmente o Correia Graça, falecido em 5Nov2010, o Ferreira Neto, falecido em 14Nov2014 e o Rodrigues Maurício, nascido em 29Nov1943 e falecido a 21Nov1994.

oOo

A não esquecer

O tradicional almoço de Natal do CR está previsto para o dia 9 de Dezembro, estando abertas as inscrições, que solicitamos sejam feitas até 2 de Dezembro.



sexta-feira, outubro 07, 2022

F.S.Lourenço

A Marinha em Moçambique

As praxes no Niassa

A Marinha de Guerra Portuguesa, o Ramo mais antigo das nossas multicentenárias Forças Armadas, sempre sustentou a sua imagem e desempenho num quadro de relacionamento social único, peculiar, inconfundível e universalista, assente no seu capital humano. Tal permitiu-lhe, como regra, optimizar os restantes vectores estruturais, de natureza material, financeira ou organizacional.

A Marinha que eu conheci foi assim, sendo mais evidente esta implícita hierarquia de valores em fases de grande crescimento na quantidade e qualidade de meios, como ocorreu na década de 60 do século passado com a aquisição de um avultado número de navios de superfície e de submarinos, a que correspondeu um significativo incremento nas suas capacidades tecnológica, científica e operacional. Como é sabido, esta situação repetiu-se em momentos posteriores, embora com características e dimensões diferentes.

Certamente que diversos factores concorreram, ao longo dos tempos, para que esta realidade – organização de cunho marcadamente cosmopolita e inerente savoir-faire - fosse a marca de água da Corporação: o secular convívio com outros povos e sociedades, a abertura a novas realidades com o conhecimento de novos horizontes e, mais contemporaneamente, a participação em Organizações Internacionais Militares, como a NATO, à qual aderimos desde a primeira hora, há mais de sete décadas, privando assim com sociedades das mais evoluídas do primeiro mundo, aprendendo muito mas igualmente afirmando os valores e características que nos identificam e referenciam.

E não será por acaso, mas garantidamente consequência da idiossincrasia do Ramo do botão de âncora, que existe em Portugal uma organização ilustre e prestigiada, a AORN (Associação de Oficiais da Reserva Naval), prosseguindo os mesmos valores e integrando um significativo número daqueles que durante quase 2 décadas, no cumprimento do seu serviço militar, escolheram a Marinha para ajudar, de forma brilhante, na gesta de África e continuando, ao longo dos tempos, a “defender a Marinha, Portugal e o Mar”, conforme rezam os seus Estatutos.

É neste contexto de dimensão social que introduzo o fenómeno das praxes, prática generalizada na instituição naval, desde o início da carreira do militar, passando por situações específicas frequentemente associadas a locais distantes da metrópole europeia.

A minha visão e, também, a minha experiência nesta área de relacionamento social impelem-me para, de forma inquestionável, assumir que em regra a existência e a prática das praxes com que convivi foram uma mais-valia para a Marinha, para os seus órgãos e, principalmente, para as pessoas, os militares envolvidos. Fê-los crescer, estruturar princípios, valorizar as relações pessoais, assumir comportamentos ajustados à profissão (como se sabe, muito baseada neste tipo de valores) e reconhecer linhas vermelhas a não ultrapassar.

Comigo, foi esta a realidade. E sei que muitos outros (naturalmente, da minha geração) comungam desta avaliação.

Claro que, desde sempre, se verificaram desvios à boa prática das praxes; mas, igualmente, existiam mecanismos de controlo e supervisão que, em tempo oportuno, os corrigiam ou eliminavam. A Escola Naval é um bom exemplo disso mesmo: o “Comodoro” da praxe, cadete do último ano, eleito pelos seus pares, intervinha de motu proprio, ou quando solicitado, em defesa dos sãos princípios daquela prática.

Não se pode também ignorar a imagem que as praxes têm, hoje, junto dos portugueses. Todos sabemos que tal juízo muito negativo resulta de cenas aberrantes, grosseiras, algumas roçando a obscenidade, visando objectivos de exibicionismo alarve, para alimento de certas redes ditas “sociais”, com que alunos de alguns estabelecimentos de ensino superior nos têm brindado ao longo dos últimos anos e a que os verdadeiros responsáveis vão reagindo com preocupante indiferença, não actuando por forma a acabar com essas poucas vergonhas no espaço público, antes as tolerando de forma cúmplice.

Fica, portanto, evidente que acabámos de falar de realidades totalmente diferentes.

Em Moçambique, a partir de meados dos anos 60 do século passado, a Marinha passou a dispôr de uma Base Naval em Metangula, na margem leste do lago Niassa, a cerca de 100 km da cidade de Vila Cabral (agora Lichinga), ponto terminal da célebre linha do “combóio do Catur”, via ferroviária que transportou de Nacala para o interior milhares de militares dos 3 ramos das Forças Armadas.

A Base de Metangula, criada na povoação de Augusto Cardoso, foi um importante instrumento de acção da Marinha na extensa área da parte portuguesa do Lago Niassa. Ocupando a península de Metangula, fronteira ao monte Tchifuli, gozava de enorme autonomia, dispunha de instalações magníficas e de todo o equipamento necessário, não esquecendo as necessidades de lazer das guarnições e famílias (estas, alojadas em habitações no exterior da Base), acolhendo várias centenas de militares e civis, em condições invejáveis, atendendo ao padrão geral das estruturas militares nacionais à data, em África. Tinha, como vectores de projecção, mais de uma dezena de meios navais, entre Lanchas de Fiscalização e Lanchas de Desembarque, Médias e Pequenas. E, tendo como “vizinhos” uma unidade do Exército (o comando do Batalhão de Caçadores atribuído àquela zona), disponibilizava-lhes o apoio logístico necessário, fornecendo a energia eléctrica às instalações.

É então com base nesta estrutura da Marinha que se esboça o que, durante os 2 primeiros anos da década de 70, foi o guião-tipo de “recepção” aos oficiais checas (ou maçaricos…) quando se apresentavam em rendição individual.

Normalmente, o visado chegava via aérea a Vila Cabral, vindo da Beira; de Metangula, saía um oficial, acompanhando o piloto num pequeno avião da Marinha, um monomotor Cessna 182 de 4 lugares (em termos formais, pertencente ao Aeroclube de Metangula…) para a adequada recepção do novo elemento.

Ao recém-chegado era sugerido que adquirisse, numa pastelaria da cidade, pastéis de nata para o jantar desse dia, na Messe. No aeroporto, seguia-se então o embarque no Cessna, que, após autorização, se dirigia ao limite da pista para iniciar a descolagem. Mas, antes, ainda com o avião imobilizado, o piloto ia fazendo perguntas comprometedoras ao oficial acompanhante, tipo “este botão, aqui no tablier, é para cima ou para baixo? E os flaps, como é que funcionam”?

A tudo isto, o pobre do visado assistia, no banco traseiro do avião, com crescente preocupação (entretanto, e ainda antes do embarque e aproveitando uma “suposta” distracção do piloto, já tinha sido informado pelo acompanhante que este era pouco hábil e quase estreante na função, tinha mesmo tido um pequeno acidente na semana anterior, mas “se Deus quiser, há-de tudo correr bem”).

Iniciada a descolagem, o piloto “comia” metade da pista, sem conseguir tirar o avião do chão; com alguns impropérios à mistura, lá o fazia subir um pouco, mas para logo de novo o deixar cair. E o pobre, cada vez mais nervoso…até que, quase no fim da (extensa) pista, o avião finalmente descolava e subia.

Iniciado o trânsito (curto, de cerca de meia hora), as vicissitudes não diminuíam; já no terço final da rota, o avião, ao ultrapassar a cordilheira de Maniamba (altitude aproximada de 1800 metros), voava próximo do topo das elevações, induzindo uma proximidade preocupante para os novatos; nessa altura, o piloto descontraidamente informava que, recentemente, ali tinha sido atacado, tendo escapado por pouco…e o recém-chegado afundava cada vez mais no banco traseiro, passando a ostentar um visual de tom amarelado.

Na preparação para a aterragem na pista de Metangula - esta, sim, curta (menos de 1000 metros), de terra batida, embora permitisse a operação de Dakotas, começava e terminava nas águas do Lago - o quadro agravava-se sobremaneira; já na aproximação, o piloto voltava a questionar o parceiro do lado sobre vários elementos técnicos, demonstrando grande desconhecimento sobre a execução da manobra. Como, naturalmente, o questionado não sabia responder, tal “obrigava” a um contacto de emergência (que só existia para o recém-chegado) com a torre de controlo, em que as perguntas mais “estranhas” eram feitas e as respostas passadas ao piloto, que actuava em conformidade.

Com a “vítima” já praticamente desfeita, ainda lhe era pedido que tivesse cuidado com a caixa dos pastéis de nata, não fosse cair com os solavancos e as manobras bruscas que estavam a ocorrer…algumas vezes, a reacção do “desgraçado”, em total desespero, era a de, com expressões aqui irreproduzíveis, informar que “queria lá saber” dos bolos…

Finalmente, após borregar duas ou três vezes, aumentado o nível já extremo de pânico do novo elemento, o avião lá pousava na pista.

Mas os problemas estavam ainda longe de terminar: infelizmente, o motor do Cessna parava antes de atingir o hangar, onde também estava a equipa de boas-vindas ao novo membro; então, como é que era possível chegar ao destino? A solução era simples: com o piloto dentro do avião, este era empurrado pelo recém-chegado até ao final (às vezes, cerca de cem metros…). Aí, para além do pessoal da sua nova Unidade, estava o “agente” da Pide/DGS...mas com funções alargadas, como a seguir se verá.

O Padre e o Agente
Este personagem, sempre de poucas falas e com semblante patibular, começava por lhe aplicar uma multa, por ter chegado depois da hora limite, que era sempre “definida” em conformidade (essa multa, à qual o pagante por vezes reagia, alegando que tal facto não era da sua responsabilidade – argumento liminarmente rejeitado -, revertia para o bar da Messe de Oficiais); em seguida, era feita uma rigorosa “inspecção” aos seus pertences, num tom ameaçador e provocatório, sendo-lhe apreendidos todos os livros, por suspeita de conterem propaganda subversiva e até o pó branco, para aplicação nos sapatos da farda, ficava retido por suspeita de poder ser droga… Entretanto, o “agente” informava-o, mantendo o ar ameaçador, que o material retido lhe seria devolvido no dia seguinte, caso não se confirmassem as suspeitas levantadas…

Iniciava-se, de seguida, a viagem (curta, cerca de 450 metros) para a Base. Mas, ainda antes da sua instalação, o recém-chegado era conduzido à enfermaria, com o objectivo de “tomar a vacina contra o paludismo” e efectuar um exame médico para “aquilatar” da sua disponibilidade física…


Aí era recebido pelo “enfermeiro”, cargo exemplarmente “desempenhado”, à época, por um Comandante de Lancha do Malawi, que envergava uma bata de aspecto abominável: sujíssima, com nódoas tipo sangue, rôta, a criar um quadro inenarrável.

O “profissional” de saúde começava por ministrar ao “paciente” a dita “vacina”, na dose de uma colher e que não era mais de que um conhecido laxante, que produziria os seus efeitos nas horas seguintes; depois, pedia-lhe para subir (e descer) de uma cadeira umas dezenas de vezes, medindo-lhe a tensão de forma muito pouco convincente…

Já meio esmagado por estes acontecimentos, era então conduzido ao alojamento.

Chegada a hora do jantar na Messe de Oficiais, na qual tinha também lugar o temido “agente” da Pide/DGS, eram-lhe passadas as instruções quanto ao cuidado a ter com esse indivíduo (situações houve em que o desafortunado, quando o via entrar na Messe e ainda indignado com as cenas ocorridas à saída do avião, pretendia reagir, do que era prontamente dissuadido, pelas “graves implicações” que daí poderiam ocorrer…

Antes de se iniciar a refeição, o “padre” iniciava uma reza, com fraseologia pouco convencional, à qual os comensais correspondiam com o ar mais convicto e crente deste mundo; o novo membro, muito baralhado, tentava integrar-se no grupo, acompanhando com dificuldade os rituais daquela “estranha” prática religiosa…

Depois do jantar, o cenário mantinha-se até ao fim do serão, com os novos camaradas a agradecer a gentileza dos bolos, mas sempre com o “agente” da Pide/DGS a visar o neófito com um ar desconfiado e hostil…

Quando se tratava de um novo Comandante de Lancha, o programa sofria uma “change”: após o fim da refeição e do convívio, o Comandante cessante e o novo dirigiam-se já noite fechada ao cais, embarcando na Lancha, porque era necessário cumprir uma missão que não tinha sido possível adiar; claro que essa missão tinha obviamente que ser agitada q.b.: ainda o navio não tinha saído da baía iniciava-se um “feroz” ataque a partir da margem, com fogo nutrido que rompia o escuro da noite, ecoava no Tchifuli e provocava a maior das confusões e “pânico” a bordo.

Depois de o Comandante “conseguir escapar” desta cilada sem baixas ou danos materiais, a Lancha regressava à Base, com o protagonista deste longo dia totalmente “impróprio para consumo”…

Terminada a jornada, era o momento para, finalmente, deixar o novo elemento recolher ao seu quarto para descansar e recuperar de tudo o que tinha vivido.

Nalguns casos e quando a chegada a Metangula ocorria mais próximo da hora do jantar, o programa era adaptado, eliminando-se algumas das cenas descritas e incluindo uma outra: para não atrasar a refeição, o recém-chegado, com a bagagem, era conduzido directamente à Messe; a meio do jantar, o Despenseiro aparecia, com ar compungido, a comunicar que tinha surgido uma situação inopinada e que não era possível disponibilizar, para aquela noite, instalações para o sr. Tenente…pelo que já tinha colocado uma cama no hall de uma das residências, junto à porta para o exterior, onde ele teria que passar a noite; e igualmente o alertava para o perigo decorrente de uma cobra (das mais venenosas, claro) que andava por ali e ainda não tinha sido apanhada…

E a primeira noite terminava mesmo assim…

Mas havia sempre o day after e, manhã cedo, tempo das formaturas para serviços, quando o mal refeito “novo membro” se dava conta de que o execrável “agente da Pide/DGS” estava agora, ou a comandar uma Unidade de Fuzileiros, ou um Serviço, ou, ainda a Esquadrilha de Lanchas, e que o padre, afinal, tinha subitamente perdido a vocação e assumido uma carreira militar laica, começava na sua cabeça a desconstrução da “realidade virtual” vivida no dia anterior e o início do conhecimento do mundo que o acolheria a partir de então.

E começava igualmente, para o visado, uma nova fase da sua vida militar, intensa, respaldada nos valores induzidos no início deste texto – o respeito por cada um, a sã camaradagem, o convívio social aberto, o “bom senso” naval – cujos efeitos, regra geral, perduraram nos tempos que se seguiram e cujas marcas ainda hoje são visíveis.

terça-feira, outubro 04, 2022

Encontros do CR: Almoço em 29SET2022

Como previsto, realizou-se em 29SET2022 mais um almoço de confraternização dos membros deste curso, no Restaurante "Mar e Grelha". Com a presença de 23 camaradas, decorreu no tradicional ambiente descontraído, sendo testemunhado por uma ementa de sardinhas assadas.

Participaram o Almeida Viegas acompanhado do filho, Augusto Pires, Bonina Moreno, Caldeira Santos, Cardoso Anaia, Carlos Fidalgo, Costa e Silva, Costa Roque, Ferreira de Carvalho, Marques de Sá, Matias Cortes, Moreira Pereira, Pereira Bento acompanhado da esposa, Pereira Macedo, Possidónio Roberto, Rebelo Marques, Reynaud da Silva, Santos Lourenço, Silva da Fonseca, Sousa Henriques, Sousa Lencastre, e Vasconcelos da Cunha.

Infelizmente, o Silva e Pinho, que se empenhou na organização do evento, foi impedido de nele participar por ter sido atingido, à última hora, pela COVID19. No momento em que esta nota foi publicada, no entanto, já está em recuperação, que desejamos seja completa.

Como habitualmente, abaixo podem ver uma fotografia do conjunto.



sábado, outubro 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Outubro 2022

No dia 8 de Setembro faleceu a rainha do Reino Unido, Isabel II. Terminou assim, de alguma forma inesperadamente, um reinado iniciado em 1952, tinha ela quase 26 anos. Mais de 70 anos de reinado, uma duração invulgar durante a qual inúmeros acontecimentos se produziram, quer no Reino Unido quer no resto do mundo. A comunicação social deu conta das palavras de condolências e de homenagem produzidas por lideres de todo o mundo, entre as quais de Portugal, onde foram declarados três dias de luto nacional. As cerimónias fúnebres tiveram lugar apenas após a proclamação do seu sucessor, Carlos III, decorrendo de 10 a 19 de Setembro data em que o corpo da rainha foi depositado no jazigo da família. O velório oficial ocupou 5 dias, durante os quais cerca de 750 mil pessoas procuraram dizer adeus à monarca, tendo que aguardar longos períodos para o conseguir.

O Funeral de Estado teve a presença, além dos seus familiares, e personalidades mais próximas, actual e antigos primeiros ministros do Reino Unido e de vários representantes de todo o mundo, numa mistura extraordinária de geografias, regimes e orientações políticas, alianças e religiões, num total de dois mil convidados que esgotaram a capacidade da Abadia de Westminster. Todo o funeral e cerimónias que o precederam foram realizados respeitando com rigor os intrincados protocolos, tradições, silêncios, salvas, hinos e repicar de sinos, rituais do luto e da sucessão no Reino Unido.

Multidões espalhadas ao longo de todo o percurso do cortejo fúnebre, em números que desafiam a estimativa, homenagearam a rainha e atiraram flores à sua passagem rumo à Capela de S. Jorge, onde ficará sepultada. O respeito mostrado pelo mundo e a admiração no seu país levaram alguns observadores à surpresa, dado que vivemos o século XXI e Isabel II “reinou mas não governou”, movimentando-se no mundo do protocolo e da representação diplomática, nunca interferindo na governação, pelo menos de forma directa. Mas a densidade das homenagens de toda a natureza que lhe foram prestadas, o peso do número dos que dela se despediram e a forma como o materializaram, misturando-se às tradições ancoradas na História do Reino Unido, não iludem. A História, sem dúvida, melhor a julgará. Que descanse em paz.

oOo

 No Leste da Europa a guerra continuou a devastação sem que seja possível antever uma resolução, e o próprio Secretário Geral da ONU, que afirmou que “os russos e os ucranianos acreditam que podem ganhar a guerra” e não ver “qualquer possibilidade, a curto prazo, de uma negociação séria”, reconheceu ser necessário “procurar alternativas para atenuar as consequências de uma guerra que deverá durar muito tempo”. Autoridades militares ucranianas concordam com uma duração longa e não afastam a possibilidade de um conflito nuclear (“limitado...”), admitem o envolvimento das “principais potências mundiais” e não excluem, mesmo, a possibilidade de guerra mundial.

Do lado da Federação Russa foi declarada uma mobilização parcial de reservistas, possivelmente influenciada pela incapacidade perante uma contra-ofensiva, lançada pela Ucrânia, não só mostrando a intenção não baixar armas, mas também voltando a proferir a ameaça do recurso a armamento nuclear. No final de Setembro a Federação Russa lançou referendos nas regiões ocupadas militarmente, cujos resultados (que lhe foram favoráveis) serão dificilmente reconhecíveis internacionalmente. Igualmente no fim de Setembro, surgiram rupturas em dois gasodutos ligando a Rússia à Alemanha, provocados por acções (por enquanto) não reivindicadas nem comprováveis, classificadas como sabotagens, que os tornam inoperativos por longo tempo (se não mesmo definitivamente), o que inviabiliza qualquer acordo que pudesse, eventualmente, ligar a União Europeia à Rússia em torno da retoma do fornecimento de gás. Refira-se, ainda, que a Ucrânia pediu adesão rápida à NATO, afirmando o seu presidente que "a Ucrânia já a integra de facto por já ter provado a compatibilidade com os padrões da Aliança".

É certo que o resumo que acima se deixa tem como base integral informações publicadas pela comunicação social, e esta tem sido usada, por vezes com maestria, para obter vantagens, minorar contratempos, influenciar opiniões, condicionar decisões, promover compromissos, entre outros objectivos, o que aconselha extrema prudência na sua leitura e aceitação. Em particular, a repetida referência à incapacidade das forças da Federação Russa faz lembrar o clássico erro de menosprezar o oponente, antecâmara de muitas derrotas e apontado amiúde como erro da Federação Russa ao invadir o país vizinho.

A guerra na Ucrânia está saudável e continua a crescer com um percentil muito bom, se bem que também muito preocupante, alargando as suas consequências, espalhando-se por um mundo interligado e interdependente, agravando as condições e perspectivas de vida de um número cada vez maior de pessoas seja onde for que vivam. Os últimos desenvolvimentos mostram-no claramente.

oOo

A Marinha lançou o concurso, no início de Setembro, para “projecto e construção de uma plataforma naval multifuncional”, que já aqui foi referido há um mês (ver aqui). Não será armado, destinando-se a "monitorizar o ambiente, combater a poluição, fiscalizar a pesca, preservar os recursos e investigar no âmbito hidrográfico e científico". Será dotado de drones desarmados destinados a vigilância. Além destas funções, em caso de necessidade, também poderá desempenhar funções de “transporte e evacuação de cidadãos”. De salientar a drástica alteração de funcionalidade entre a descrição anterior e a que aqui agora resumimos.

A 29 de Setembro realizou-se mais um dos encontros do Curso CR, de que tencionamos dar conta mais detalhada em outro local.

Neste mês de Outubro completarão mais um ano os seguintes camaradas, a quem endereçamos um abraço de parabéns:

02OUT (1946) Fernando Luís Caldeira Ferreira dos Santos
06OUT (1944) Manuel de Campos Pereira Bento
07OUT (1943) Aniceto Armando Pascoal
08OUT (1944) Eurico Ferreira de Carvalho
19OUT (1945) Jaime Alexandre Velez Caldas
20OUT (1943) Luis Sebastião Feio de Almeida d’Eça

Relembraremos também, nascido a 11OUT, o Dias Ferreira, falecido em 04MAR2012 e igualmente o Sanches Oliveira, “Sueco”, falecido em 20OUT2015.

quarta-feira, setembro 21, 2022

Encontros do CR: Almoço em 29SET2022

Está previsto para 29 deste mês de Setembro, quinta-feira, pelas 1230, o próximo encontro do CR, na forma de um almoço a realizar no Restaurante "Mar e Grelha", em que o centro de gravidade se situará em torno de uma sardinhada.

Aguardamos as vossas inscrições até ao dia 27, que podem ser feitas junto do S. Pinho, do V. Cunha ou do C. Roque, que igualmente estão em condições de fornecer qualquer esclarecimento adicional de que careçam.



quinta-feira, setembro 15, 2022

Convívio do Curso: Setembro 2022

 

Foi em 8 de Setembro que teve lugar mais um encontro deste Curso, que se realizou no restaurante da Associação de Comandos, integrado no espaço da antiga Bataria da Lage, em S. Amaro de Oeiras.

Estiveram presentes 18 membros do Curso, Correia Marques, Saldanha Carreira, Cardoso Anaia, Santos Lourenço, Moreira Pereira, Freire Menezes, Vasconcelos Carrasco, Medeiros de  Sousa, Costa e Silva, Silva e Pinho, Vasconcelos da Cunha, Reynaud da Silva, Costa Roque, Possidónio Roberto, Rebelo Duarte, Matias Cortes, Rebelo Marques e Almeida Viegas (e seu filho Guilherme), muitos acompanhados das suas cônjuges, como a foto mostra, acompanhados igualmente pela Fátima Oliveira (filha do nosso Comandante Abel), que gentilmente se juntou ao grupo.

Com uma vista sobre a foz do Tejo, tendo o Bugio em fundo, e aquele oceano “desconhecido” que dá pelo nome de Atlântico, foi visitada a histórica bataria, proporcionando agradáveis e descontraídos momentos.

 

quinta-feira, setembro 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Setembro 2022

Neste Agosto que ontem terminou, o fogo, um fenómeno natural, tornou-se notícia de primeira página ao atacar vários locais do país, entre os quais o Parque Natural da Serra da Estrela, onde o incêndio se instalou durante uma semana, como se, de férias, estivesse a gozar a beleza, a tranquilidade e o famoso queijo, na companhia dos animais de estimação que se dizem da raça com o mesmo nome que a Serra. Claro que uma multidão de quase 1500 operacionais, e muitos meios de combate foram mobilizados para o dominar, e conseguiram-no, mas no final tinham ardido mais de 1750 ha, a destruição atingiu todo o ecosistema do Parque, provocou vários feridos e deslocação de populações. Mas podia ter sido pior, já que o Governo divulgou que estudos e simulações previam, dadas as condições meteorológicas, que a área pudesse ser 30% maior; e rapidamente anunciou um plano de revitalização com condições para atrair mais pessoas, diversificar actividades económicas e apostar no turismo, o que garantirá a presença da actividade económica, que considerou “uma das melhores formas de prevenir incêndios”, apontando para que o Parque Natural fique no futuro “melhor do que estava”. Esperemos que tal plano não venha a encalhar nos recifes onde tantos planos enferrujam e que não fira a característica “natural” da zona.

Prosseguiu a guerra na Ucrânia, onde os avanços militares parecem ter diminuído de amplitude. Nas declarações que têm vindo a público, não é, entretanto, visível, qualquer tentativa ou iniciativa que leve a um cessar fogo e a um transferir do conflito para a mesa das negociações. Cada um dos lados insiste nas suas posições, essencialmente baseadas na força militar, o que não permite optimismos. A União Europeia, em notícia de ontem, 31 de Agosto, irá suspender (ou terminar) o acordo que permitia facilitar a emissão de vistos de circulação na UE aos cidadãos russos.

O custo de vida foi outro assunto dominante durante o mês passado, sabendo-se, da estatística também ontem publicada, que a inflação se situou nos 9%. Mas a maior preocupação fixou-se no custo da energia, que parece não só ter características de instabilidade, mas sobretudo se encontrar em crescendo que alguns observadores classificam de “absurdo”. Além do custo, a própria disponibilidade vê-se ameaçada mercê da dependência de toda a UE (embora com diferenças entre os diversos países) da energia fornecida pela Rússia, agora profundamente afectada na sequência da invasão da Ucrânia, o que trouxe a primeiro plano a necessidade de introduzir medidas de poupança.

A meados do mês foi divulgado um pouco mais de um navio multifunções que a Marinha pretende construir, baseado num conceito a que foi atribuído o qualificativo de “revolucionário”. Trata-se de um navio de deslocamento à volta das 5000 toneladas, que poderá ser empregue em missões militares, de vigilância de extensas áreas no policiamento de “todo o tipo de actividades ilícitas”, em missões científicas e em missões logísticas. Será dotado de três tipos de drones, “mais do que 50 drones armados capazes de voar 24 horas seguidas a uma média de 150 quilómetros por hora [...] aptos para fazer vigilância e defesa, com capacidade de deteção, intersecção e ataque”, e também drones aquáticos e minisubmarinos, que no conjunto tornarão o navio “uma das armas mais letais e com maior alcance das Forças Armadas Portuguesas”. O uso de módulos contribuirá para a alteração funcional, podendo ser “rapidamente alterados conforme a utilização, sem ter de passar meses na doca”.

Na Escola Naval prosseguiu o concurso para admissão de cadetes. De entre 258 candidatos que foram convocados para as Provas Fisicas e de Adaptação ao Meio Aquático, apenas 138 o foram para as Provas de Avaliação Psicológica, Inspeção Médica e Junta de Recrutamento e Classificação. Para a 3ª e última fase do concurso, Verificação de Aptidão Militar Naval foram seleccionados 111 candidatos.

Há muitos anos, em 9 de Março de 1500, uma armada largou de Lisboa, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, a 14 estava à vista das Canárias e a 22 ao largo de São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, tendo-se perdido da armada, na noite seguinte, a nau de Vasco de Ataíde.

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, [...] os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Nesse mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Pero Vaz de Caminha, carta a D. Manuel

Caminha descreve o contacto com as populações durante a estadia dos navios no local e a tomada de decisão do envio da
nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

Idem

Assim decidido, a armada segue a sua missão, e a “nova do achamento” chega a Lisboa. Vera Cruz haveria de ser, em poucos anos, o Brasil.

Pouco mais de 3 séculos depois, a família real portuguesa, perante as ameaças napoleónicas, transfere-se para o Brasil, chegando D. João VI, então ainda regente, ao Rio de Janeiro em Março de 1808 onde permanecerá até 1821, ano em que regressa, por força da situação política, a Portugal.

Mas o Brasil já tinha vida própria e fora elevado a reino em 1815, parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, tendo D. João VI deixado o seu filho D. Pedro como regente do Reino do Brasil. A D. Pedro, herdeiro da coroa portuguesa e príncipe-regente do Reino do Brasil, é exigido, pelas Cortes portuguesas, o regresso a Portugal.

Mas D. Pedro afronta as Cortes, recusa a exigência e a 9 de Janeiro de 1822 (data que ficará conhecida por o “Dia do Fico”) declara a célebre frase 

Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Diga ao povo que fico. 

E, em 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro assume a separação definitiva, junto ao rio Ipiranga:

Amigos, as Cortes Portuguesas querem escravizar-nos e perseguir-nos. A partir de hoje as nossas relações estão quebradas. Nenhum vínculo unir-nos mais. Tirem suas braçadeiras soldados. Viva independência, à liberdade e à separação do Brasil. Para o meu sangue, minha honra, meu Deus, eu juro dar ao Brasil a liberdade.

Independência ou morte!

Grito do Ipiranga

Duzentos anos depois, evocamos a famosa data. Parabéns, Brasil

E, igualmente, daqui enviamos os parabéns aos membros deste curso que decidiram que Setembro era (e provavelmente ainda é) um bom mês para nascer:

08SET (1943) Pedro Aires Trigo de Sousa Lencastre
18SET (1945) Carlos Bonina Moreno
25SET (1944) Fernando Ramiro de Medeiros Sousa

A todos um abraço.

E recordaremos também, no dia 3, o Francisco Pina (falecido em 2003), a 17 o Marques Bilreiro (falecido em 2005) e a 25 o Correia Graça, que igualmente já se não encontra entre nós.