sexta-feira, outubro 07, 2022

F.S.Lourenço

A Marinha em Moçambique

As praxes no Niassa

A Marinha de Guerra Portuguesa, o Ramo mais antigo das nossas multicentenárias Forças Armadas, sempre sustentou a sua imagem e desempenho num quadro de relacionamento social único, peculiar, inconfundível e universalista, assente no seu capital humano. Tal permitiu-lhe, como regra, optimizar os restantes vectores estruturais, de natureza material, financeira ou organizacional.

A Marinha que eu conheci foi assim, sendo mais evidente esta implícita hierarquia de valores em fases de grande crescimento na quantidade e qualidade de meios, como ocorreu na década de 60 do século passado com a aquisição de um avultado número de navios de superfície e de submarinos, a que correspondeu um significativo incremento nas suas capacidades tecnológica, científica e operacional. Como é sabido, esta situação repetiu-se em momentos posteriores, embora com características e dimensões diferentes.

Certamente que diversos factores concorreram, ao longo dos tempos, para que esta realidade – organização de cunho marcadamente cosmopolita e inerente savoir-faire - fosse a marca de água da Corporação: o secular convívio com outros povos e sociedades, a abertura a novas realidades com o conhecimento de novos horizontes e, mais contemporaneamente, a participação em Organizações Internacionais Militares, como a NATO, à qual aderimos desde a primeira hora, há mais de sete décadas, privando assim com sociedades das mais evoluídas do primeiro mundo, aprendendo muito mas igualmente afirmando os valores e características que nos identificam e referenciam.

E não será por acaso, mas garantidamente consequência da idiossincrasia do Ramo do botão de âncora, que existe em Portugal uma organização ilustre e prestigiada, a AORN (Associação de Oficiais da Reserva Naval), prosseguindo os mesmos valores e integrando um significativo número daqueles que durante quase 2 décadas, no cumprimento do seu serviço militar, escolheram a Marinha para ajudar, de forma brilhante, na gesta de África e continuando, ao longo dos tempos, a “defender a Marinha, Portugal e o Mar”, conforme rezam os seus Estatutos.

É neste contexto de dimensão social que introduzo o fenómeno das praxes, prática generalizada na instituição naval, desde o início da carreira do militar, passando por situações específicas frequentemente associadas a locais distantes da metrópole europeia.

A minha visão e, também, a minha experiência nesta área de relacionamento social impelem-me para, de forma inquestionável, assumir que em regra a existência e a prática das praxes com que convivi foram uma mais-valia para a Marinha, para os seus órgãos e, principalmente, para as pessoas, os militares envolvidos. Fê-los crescer, estruturar princípios, valorizar as relações pessoais, assumir comportamentos ajustados à profissão (como se sabe, muito baseada neste tipo de valores) e reconhecer linhas vermelhas a não ultrapassar.

Comigo, foi esta a realidade. E sei que muitos outros (naturalmente, da minha geração) comungam desta avaliação.

Claro que, desde sempre, se verificaram desvios à boa prática das praxes; mas, igualmente, existiam mecanismos de controlo e supervisão que, em tempo oportuno, os corrigiam ou eliminavam. A Escola Naval é um bom exemplo disso mesmo: o “Comodoro” da praxe, cadete do último ano, eleito pelos seus pares, intervinha de motu proprio, ou quando solicitado, em defesa dos sãos princípios daquela prática.

Não se pode também ignorar a imagem que as praxes têm, hoje, junto dos portugueses. Todos sabemos que tal juízo muito negativo resulta de cenas aberrantes, grosseiras, algumas roçando a obscenidade, visando objectivos de exibicionismo alarve, para alimento de certas redes ditas “sociais”, com que alunos de alguns estabelecimentos de ensino superior nos têm brindado ao longo dos últimos anos e a que os verdadeiros responsáveis vão reagindo com preocupante indiferença, não actuando por forma a acabar com essas poucas vergonhas no espaço público, antes as tolerando de forma cúmplice.

Fica, portanto, evidente que acabámos de falar de realidades totalmente diferentes.

Em Moçambique, a partir de meados dos anos 60 do século passado, a Marinha passou a dispôr de uma Base Naval em Metangula, na margem leste do lago Niassa, a cerca de 100 km da cidade de Vila Cabral (agora Lichinga), ponto terminal da célebre linha do “combóio do Catur”, via ferroviária que transportou de Nacala para o interior milhares de militares dos 3 ramos das Forças Armadas.

A Base de Metangula, criada na povoação de Augusto Cardoso, foi um importante instrumento de acção da Marinha na extensa área da parte portuguesa do Lago Niassa. Ocupando a península de Metangula, fronteira ao monte Tchifuli, gozava de enorme autonomia, dispunha de instalações magníficas e de todo o equipamento necessário, não esquecendo as necessidades de lazer das guarnições e famílias (estas, alojadas em habitações no exterior da Base), acolhendo várias centenas de militares e civis, em condições invejáveis, atendendo ao padrão geral das estruturas militares nacionais à data, em África. Tinha, como vectores de projecção, mais de uma dezena de meios navais, entre Lanchas de Fiscalização e Lanchas de Desembarque, Médias e Pequenas. E, tendo como “vizinhos” uma unidade do Exército (o comando do Batalhão de Caçadores atribuído àquela zona), disponibilizava-lhes o apoio logístico necessário, fornecendo a energia eléctrica às instalações.

É então com base nesta estrutura da Marinha que se esboça o que, durante os 2 primeiros anos da década de 70, foi o guião-tipo de “recepção” aos oficiais checas (ou maçaricos…) quando se apresentavam em rendição individual.

Normalmente, o visado chegava via aérea a Vila Cabral, vindo da Beira; de Metangula, saía um oficial, acompanhando o piloto num pequeno avião da Marinha, um monomotor Cessna 182 de 4 lugares (em termos formais, pertencente ao Aeroclube de Metangula…) para a adequada recepção do novo elemento.

Ao recém-chegado era sugerido que adquirisse, numa pastelaria da cidade, pastéis de nata para o jantar desse dia, na Messe. No aeroporto, seguia-se então o embarque no Cessna, que, após autorização, se dirigia ao limite da pista para iniciar a descolagem. Mas, antes, ainda com o avião imobilizado, o piloto ia fazendo perguntas comprometedoras ao oficial acompanhante, tipo “este botão, aqui no tablier, é para cima ou para baixo? E os flaps, como é que funcionam”?

A tudo isto, o pobre do visado assistia, no banco traseiro do avião, com crescente preocupação (entretanto, e ainda antes do embarque e aproveitando uma “suposta” distracção do piloto, já tinha sido informado pelo acompanhante que este era pouco hábil e quase estreante na função, tinha mesmo tido um pequeno acidente na semana anterior, mas “se Deus quiser, há-de tudo correr bem”).

Iniciada a descolagem, o piloto “comia” metade da pista, sem conseguir tirar o avião do chão; com alguns impropérios à mistura, lá o fazia subir um pouco, mas para logo de novo o deixar cair. E o pobre, cada vez mais nervoso…até que, quase no fim da (extensa) pista, o avião finalmente descolava e subia.

Iniciado o trânsito (curto, de cerca de meia hora), as vicissitudes não diminuíam; já no terço final da rota, o avião, ao ultrapassar a cordilheira de Maniamba (altitude aproximada de 1800 metros), voava próximo do topo das elevações, induzindo uma proximidade preocupante para os novatos; nessa altura, o piloto descontraidamente informava que, recentemente, ali tinha sido atacado, tendo escapado por pouco…e o recém-chegado afundava cada vez mais no banco traseiro, passando a ostentar um visual de tom amarelado.

Na preparação para a aterragem na pista de Metangula - esta, sim, curta (menos de 1000 metros), de terra batida, embora permitisse a operação de Dakotas, começava e terminava nas águas do Lago - o quadro agravava-se sobremaneira; já na aproximação, o piloto voltava a questionar o parceiro do lado sobre vários elementos técnicos, demonstrando grande desconhecimento sobre a execução da manobra. Como, naturalmente, o questionado não sabia responder, tal “obrigava” a um contacto de emergência (que só existia para o recém-chegado) com a torre de controlo, em que as perguntas mais “estranhas” eram feitas e as respostas passadas ao piloto, que actuava em conformidade.

Com a “vítima” já praticamente desfeita, ainda lhe era pedido que tivesse cuidado com a caixa dos pastéis de nata, não fosse cair com os solavancos e as manobras bruscas que estavam a ocorrer…algumas vezes, a reacção do “desgraçado”, em total desespero, era a de, com expressões aqui irreproduzíveis, informar que “queria lá saber” dos bolos…

Finalmente, após borregar duas ou três vezes, aumentado o nível já extremo de pânico do novo elemento, o avião lá pousava na pista.

Mas os problemas estavam ainda longe de terminar: infelizmente, o motor do Cessna parava antes de atingir o hangar, onde também estava a equipa de boas-vindas ao novo membro; então, como é que era possível chegar ao destino? A solução era simples: com o piloto dentro do avião, este era empurrado pelo recém-chegado até ao final (às vezes, cerca de cem metros…). Aí, para além do pessoal da sua nova Unidade, estava o “agente” da Pide/DGS...mas com funções alargadas, como a seguir se verá.

O Padre e o Agente
Este personagem, sempre de poucas falas e com semblante patibular, começava por lhe aplicar uma multa, por ter chegado depois da hora limite, que era sempre “definida” em conformidade (essa multa, à qual o pagante por vezes reagia, alegando que tal facto não era da sua responsabilidade – argumento liminarmente rejeitado -, revertia para o bar da Messe de Oficiais); em seguida, era feita uma rigorosa “inspecção” aos seus pertences, num tom ameaçador e provocatório, sendo-lhe apreendidos todos os livros, por suspeita de conterem propaganda subversiva e até o pó branco, para aplicação nos sapatos da farda, ficava retido por suspeita de poder ser droga… Entretanto, o “agente” informava-o, mantendo o ar ameaçador, que o material retido lhe seria devolvido no dia seguinte, caso não se confirmassem as suspeitas levantadas…

Iniciava-se, de seguida, a viagem (curta, cerca de 450 metros) para a Base. Mas, ainda antes da sua instalação, o recém-chegado era conduzido à enfermaria, com o objectivo de “tomar a vacina contra o paludismo” e efectuar um exame médico para “aquilatar” da sua disponibilidade física…


Aí era recebido pelo “enfermeiro”, cargo exemplarmente “desempenhado”, à época, por um Comandante de Lancha do Malawi, que envergava uma bata de aspecto abominável: sujíssima, com nódoas tipo sangue, rôta, a criar um quadro inenarrável.

O “profissional” de saúde começava por ministrar ao “paciente” a dita “vacina”, na dose de uma colher e que não era mais de que um conhecido laxante, que produziria os seus efeitos nas horas seguintes; depois, pedia-lhe para subir (e descer) de uma cadeira umas dezenas de vezes, medindo-lhe a tensão de forma muito pouco convincente…

Já meio esmagado por estes acontecimentos, era então conduzido ao alojamento.

Chegada a hora do jantar na Messe de Oficiais, na qual tinha também lugar o temido “agente” da Pide/DGS, eram-lhe passadas as instruções quanto ao cuidado a ter com esse indivíduo (situações houve em que o desafortunado, quando o via entrar na Messe e ainda indignado com as cenas ocorridas à saída do avião, pretendia reagir, do que era prontamente dissuadido, pelas “graves implicações” que daí poderiam ocorrer…

Antes de se iniciar a refeição, o “padre” iniciava uma reza, com fraseologia pouco convencional, à qual os comensais correspondiam com o ar mais convicto e crente deste mundo; o novo membro, muito baralhado, tentava integrar-se no grupo, acompanhando com dificuldade os rituais daquela “estranha” prática religiosa…

Depois do jantar, o cenário mantinha-se até ao fim do serão, com os novos camaradas a agradecer a gentileza dos bolos, mas sempre com o “agente” da Pide/DGS a visar o neófito com um ar desconfiado e hostil…

Quando se tratava de um novo Comandante de Lancha, o programa sofria uma “change”: após o fim da refeição e do convívio, o Comandante cessante e o novo dirigiam-se já noite fechada ao cais, embarcando na Lancha, porque era necessário cumprir uma missão que não tinha sido possível adiar; claro que essa missão tinha obviamente que ser agitada q.b.: ainda o navio não tinha saído da baía iniciava-se um “feroz” ataque a partir da margem, com fogo nutrido que rompia o escuro da noite, ecoava no Tchifuli e provocava a maior das confusões e “pânico” a bordo.

Depois de o Comandante “conseguir escapar” desta cilada sem baixas ou danos materiais, a Lancha regressava à Base, com o protagonista deste longo dia totalmente “impróprio para consumo”…

Terminada a jornada, era o momento para, finalmente, deixar o novo elemento recolher ao seu quarto para descansar e recuperar de tudo o que tinha vivido.

Nalguns casos e quando a chegada a Metangula ocorria mais próximo da hora do jantar, o programa era adaptado, eliminando-se algumas das cenas descritas e incluindo uma outra: para não atrasar a refeição, o recém-chegado, com a bagagem, era conduzido directamente à Messe; a meio do jantar, o Despenseiro aparecia, com ar compungido, a comunicar que tinha surgido uma situação inopinada e que não era possível disponibilizar, para aquela noite, instalações para o sr. Tenente…pelo que já tinha colocado uma cama no hall de uma das residências, junto à porta para o exterior, onde ele teria que passar a noite; e igualmente o alertava para o perigo decorrente de uma cobra (das mais venenosas, claro) que andava por ali e ainda não tinha sido apanhada…

E a primeira noite terminava mesmo assim…

Mas havia sempre o day after e, manhã cedo, tempo das formaturas para serviços, quando o mal refeito “novo membro” se dava conta de que o execrável “agente da Pide/DGS” estava agora, ou a comandar uma Unidade de Fuzileiros, ou um Serviço, ou, ainda a Esquadrilha de Lanchas, e que o padre, afinal, tinha subitamente perdido a vocação e assumido uma carreira militar laica, começava na sua cabeça a desconstrução da “realidade virtual” vivida no dia anterior e o início do conhecimento do mundo que o acolheria a partir de então.

E começava igualmente, para o visado, uma nova fase da sua vida militar, intensa, respaldada nos valores induzidos no início deste texto – o respeito por cada um, a sã camaradagem, o convívio social aberto, o “bom senso” naval – cujos efeitos, regra geral, perduraram nos tempos que se seguiram e cujas marcas ainda hoje são visíveis.

terça-feira, outubro 04, 2022

Encontros do CR: Almoço em 29SET2022

Como previsto, realizou-se em 29SET2022 mais um almoço de confraternização dos membros deste curso, no Restaurante "Mar e Grelha". Com a presença de 23 camaradas, decorreu no tradicional ambiente descontraído, sendo testemunhado por uma ementa de sardinhas assadas.

Participaram o Almeida Viegas acompanhado do filho, Augusto Pires, Bonina Moreno, Caldeira Santos, Cardoso Anaia, Carlos Fidalgo, Costa e Silva, Costa Roque, Ferreira de Carvalho, Marques de Sá, Matias Cortes, Moreira Pereira, Pereira Bento acompanhado da esposa, Pereira Macedo, Possidónio Roberto, Rebelo Marques, Reynaud da Silva, Santos Lourenço, Silva da Fonseca, Sousa Henriques, Sousa Lencastre, e Vasconcelos da Cunha.

Infelizmente, o Silva e Pinho, que se empenhou na organização do evento, foi impedido de nele participar por ter sido atingido, à última hora, pela COVID19. No momento em que esta nota foi publicada, no entanto, já está em recuperação, que desejamos seja completa.

Como habitualmente, abaixo podem ver uma fotografia do conjunto.



sábado, outubro 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Outubro 2022

No dia 8 de Setembro faleceu a rainha do Reino Unido, Isabel II. Terminou assim, de alguma forma inesperadamente, um reinado iniciado em 1952, tinha ela quase 26 anos. Mais de 70 anos de reinado, uma duração invulgar durante a qual inúmeros acontecimentos se produziram, quer no Reino Unido quer no resto do mundo. A comunicação social deu conta das palavras de condolências e de homenagem produzidas por lideres de todo o mundo, entre as quais de Portugal, onde foram declarados três dias de luto nacional. As cerimónias fúnebres tiveram lugar apenas após a proclamação do seu sucessor, Carlos III, decorrendo de 10 a 19 de Setembro data em que o corpo da rainha foi depositado no jazigo da família. O velório oficial ocupou 5 dias, durante os quais cerca de 750 mil pessoas procuraram dizer adeus à monarca, tendo que aguardar longos períodos para o conseguir.

O Funeral de Estado teve a presença, além dos seus familiares, e personalidades mais próximas, actual e antigos primeiros ministros do Reino Unido e de vários representantes de todo o mundo, numa mistura extraordinária de geografias, regimes e orientações políticas, alianças e religiões, num total de dois mil convidados que esgotaram a capacidade da Abadia de Westminster. Todo o funeral e cerimónias que o precederam foram realizados respeitando com rigor os intrincados protocolos, tradições, silêncios, salvas, hinos e repicar de sinos, rituais do luto e da sucessão no Reino Unido.

Multidões espalhadas ao longo de todo o percurso do cortejo fúnebre, em números que desafiam a estimativa, homenagearam a rainha e atiraram flores à sua passagem rumo à Capela de S. Jorge, onde ficará sepultada. O respeito mostrado pelo mundo e a admiração no seu país levaram alguns observadores à surpresa, dado que vivemos o século XXI e Isabel II “reinou mas não governou”, movimentando-se no mundo do protocolo e da representação diplomática, nunca interferindo na governação, pelo menos de forma directa. Mas a densidade das homenagens de toda a natureza que lhe foram prestadas, o peso do número dos que dela se despediram e a forma como o materializaram, misturando-se às tradições ancoradas na História do Reino Unido, não iludem. A História, sem dúvida, melhor a julgará. Que descanse em paz.

oOo

 No Leste da Europa a guerra continuou a devastação sem que seja possível antever uma resolução, e o próprio Secretário Geral da ONU, que afirmou que “os russos e os ucranianos acreditam que podem ganhar a guerra” e não ver “qualquer possibilidade, a curto prazo, de uma negociação séria”, reconheceu ser necessário “procurar alternativas para atenuar as consequências de uma guerra que deverá durar muito tempo”. Autoridades militares ucranianas concordam com uma duração longa e não afastam a possibilidade de um conflito nuclear (“limitado...”), admitem o envolvimento das “principais potências mundiais” e não excluem, mesmo, a possibilidade de guerra mundial.

Do lado da Federação Russa foi declarada uma mobilização parcial de reservistas, possivelmente influenciada pela incapacidade perante uma contra-ofensiva, lançada pela Ucrânia, não só mostrando a intenção não baixar armas, mas também voltando a proferir a ameaça do recurso a armamento nuclear. No final de Setembro a Federação Russa lançou referendos nas regiões ocupadas militarmente, cujos resultados (que lhe foram favoráveis) serão dificilmente reconhecíveis internacionalmente. Igualmente no fim de Setembro, surgiram rupturas em dois gasodutos ligando a Rússia à Alemanha, provocados por acções (por enquanto) não reivindicadas nem comprováveis, classificadas como sabotagens, que os tornam inoperativos por longo tempo (se não mesmo definitivamente), o que inviabiliza qualquer acordo que pudesse, eventualmente, ligar a União Europeia à Rússia em torno da retoma do fornecimento de gás. Refira-se, ainda, que a Ucrânia pediu adesão rápida à NATO, afirmando o seu presidente que "a Ucrânia já a integra de facto por já ter provado a compatibilidade com os padrões da Aliança".

É certo que o resumo que acima se deixa tem como base integral informações publicadas pela comunicação social, e esta tem sido usada, por vezes com maestria, para obter vantagens, minorar contratempos, influenciar opiniões, condicionar decisões, promover compromissos, entre outros objectivos, o que aconselha extrema prudência na sua leitura e aceitação. Em particular, a repetida referência à incapacidade das forças da Federação Russa faz lembrar o clássico erro de menosprezar o oponente, antecâmara de muitas derrotas e apontado amiúde como erro da Federação Russa ao invadir o país vizinho.

A guerra na Ucrânia está saudável e continua a crescer com um percentil muito bom, se bem que também muito preocupante, alargando as suas consequências, espalhando-se por um mundo interligado e interdependente, agravando as condições e perspectivas de vida de um número cada vez maior de pessoas seja onde for que vivam. Os últimos desenvolvimentos mostram-no claramente.

oOo

A Marinha lançou o concurso, no início de Setembro, para “projecto e construção de uma plataforma naval multifuncional”, que já aqui foi referido há um mês (ver aqui). Não será armado, destinando-se a "monitorizar o ambiente, combater a poluição, fiscalizar a pesca, preservar os recursos e investigar no âmbito hidrográfico e científico". Será dotado de drones desarmados destinados a vigilância. Além destas funções, em caso de necessidade, também poderá desempenhar funções de “transporte e evacuação de cidadãos”. De salientar a drástica alteração de funcionalidade entre a descrição anterior e a que aqui agora resumimos.

A 29 de Setembro realizou-se mais um dos encontros do Curso CR, de que tencionamos dar conta mais detalhada em outro local.

Neste mês de Outubro completarão mais um ano os seguintes camaradas, a quem endereçamos um abraço de parabéns:

02OUT (1946) Fernando Luís Caldeira Ferreira dos Santos
06OUT (1944) Manuel de Campos Pereira Bento
07OUT (1943) Aniceto Armando Pascoal
08OUT (1944) Eurico Ferreira de Carvalho
19OUT (1945) Jaime Alexandre Velez Caldas
20OUT (1943) Luis Sebastião Feio de Almeida d’Eça

Relembraremos também, nascido a 11OUT, o Dias Ferreira, falecido em 04MAR2012 e igualmente o Sanches Oliveira, “Sueco”, falecido em 20OUT2015.

quarta-feira, setembro 21, 2022

Encontros do CR: Almoço em 29SET2022

Está previsto para 29 deste mês de Setembro, quinta-feira, pelas 1230, o próximo encontro do CR, na forma de um almoço a realizar no Restaurante "Mar e Grelha", em que o centro de gravidade se situará em torno de uma sardinhada.

Aguardamos as vossas inscrições até ao dia 27, que podem ser feitas junto do S. Pinho, do V. Cunha ou do C. Roque, que igualmente estão em condições de fornecer qualquer esclarecimento adicional de que careçam.



quinta-feira, setembro 15, 2022

Convívio do Curso: Setembro 2022

 

Foi em 8 de Setembro que teve lugar mais um encontro deste Curso, que se realizou no restaurante da Associação de Comandos, integrado no espaço da antiga Bataria da Lage, em S. Amaro de Oeiras.

Estiveram presentes 18 membros do Curso, Correia Marques, Saldanha Carreira, Cardoso Anaia, Santos Lourenço, Moreira Pereira, Freire Menezes, Vasconcelos Carrasco, Medeiros de  Sousa, Costa e Silva, Silva e Pinho, Vasconcelos da Cunha, Reynaud da Silva, Costa Roque, Possidónio Roberto, Rebelo Duarte, Matias Cortes, Rebelo Marques e Almeida Viegas (e seu filho Guilherme), muitos acompanhados das suas cônjuges, como a foto mostra, acompanhados igualmente pela Fátima Oliveira (filha do nosso Comandante Abel), que gentilmente se juntou ao grupo.

Com uma vista sobre a foz do Tejo, tendo o Bugio em fundo, e aquele oceano “desconhecido” que dá pelo nome de Atlântico, foi visitada a histórica bataria, proporcionando agradáveis e descontraídos momentos.

 

quinta-feira, setembro 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Setembro 2022

Neste Agosto que ontem terminou, o fogo, um fenómeno natural, tornou-se notícia de primeira página ao atacar vários locais do país, entre os quais o Parque Natural da Serra da Estrela, onde o incêndio se instalou durante uma semana, como se, de férias, estivesse a gozar a beleza, a tranquilidade e o famoso queijo, na companhia dos animais de estimação que se dizem da raça com o mesmo nome que a Serra. Claro que uma multidão de quase 1500 operacionais, e muitos meios de combate foram mobilizados para o dominar, e conseguiram-no, mas no final tinham ardido mais de 1750 ha, a destruição atingiu todo o ecosistema do Parque, provocou vários feridos e deslocação de populações. Mas podia ter sido pior, já que o Governo divulgou que estudos e simulações previam, dadas as condições meteorológicas, que a área pudesse ser 30% maior; e rapidamente anunciou um plano de revitalização com condições para atrair mais pessoas, diversificar actividades económicas e apostar no turismo, o que garantirá a presença da actividade económica, que considerou “uma das melhores formas de prevenir incêndios”, apontando para que o Parque Natural fique no futuro “melhor do que estava”. Esperemos que tal plano não venha a encalhar nos recifes onde tantos planos enferrujam e que não fira a característica “natural” da zona.

Prosseguiu a guerra na Ucrânia, onde os avanços militares parecem ter diminuído de amplitude. Nas declarações que têm vindo a público, não é, entretanto, visível, qualquer tentativa ou iniciativa que leve a um cessar fogo e a um transferir do conflito para a mesa das negociações. Cada um dos lados insiste nas suas posições, essencialmente baseadas na força militar, o que não permite optimismos. A União Europeia, em notícia de ontem, 31 de Agosto, irá suspender (ou terminar) o acordo que permitia facilitar a emissão de vistos de circulação na UE aos cidadãos russos.

O custo de vida foi outro assunto dominante durante o mês passado, sabendo-se, da estatística também ontem publicada, que a inflação se situou nos 9%. Mas a maior preocupação fixou-se no custo da energia, que parece não só ter características de instabilidade, mas sobretudo se encontrar em crescendo que alguns observadores classificam de “absurdo”. Além do custo, a própria disponibilidade vê-se ameaçada mercê da dependência de toda a UE (embora com diferenças entre os diversos países) da energia fornecida pela Rússia, agora profundamente afectada na sequência da invasão da Ucrânia, o que trouxe a primeiro plano a necessidade de introduzir medidas de poupança.

A meados do mês foi divulgado um pouco mais de um navio multifunções que a Marinha pretende construir, baseado num conceito a que foi atribuído o qualificativo de “revolucionário”. Trata-se de um navio de deslocamento à volta das 5000 toneladas, que poderá ser empregue em missões militares, de vigilância de extensas áreas no policiamento de “todo o tipo de actividades ilícitas”, em missões científicas e em missões logísticas. Será dotado de três tipos de drones, “mais do que 50 drones armados capazes de voar 24 horas seguidas a uma média de 150 quilómetros por hora [...] aptos para fazer vigilância e defesa, com capacidade de deteção, intersecção e ataque”, e também drones aquáticos e minisubmarinos, que no conjunto tornarão o navio “uma das armas mais letais e com maior alcance das Forças Armadas Portuguesas”. O uso de módulos contribuirá para a alteração funcional, podendo ser “rapidamente alterados conforme a utilização, sem ter de passar meses na doca”.

Na Escola Naval prosseguiu o concurso para admissão de cadetes. De entre 258 candidatos que foram convocados para as Provas Fisicas e de Adaptação ao Meio Aquático, apenas 138 o foram para as Provas de Avaliação Psicológica, Inspeção Médica e Junta de Recrutamento e Classificação. Para a 3ª e última fase do concurso, Verificação de Aptidão Militar Naval foram seleccionados 111 candidatos.

Há muitos anos, em 9 de Março de 1500, uma armada largou de Lisboa, sob o comando de Pedro Álvares Cabral, a 14 estava à vista das Canárias e a 22 ao largo de São Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, tendo-se perdido da armada, na noite seguinte, a nau de Vasco de Ataíde.

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, [...] os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Nesse mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

Pero Vaz de Caminha, carta a D. Manuel

Caminha descreve o contacto com as populações durante a estadia dos navios no local e a tomada de decisão do envio da
nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

Idem

Assim decidido, a armada segue a sua missão, e a “nova do achamento” chega a Lisboa. Vera Cruz haveria de ser, em poucos anos, o Brasil.

Pouco mais de 3 séculos depois, a família real portuguesa, perante as ameaças napoleónicas, transfere-se para o Brasil, chegando D. João VI, então ainda regente, ao Rio de Janeiro em Março de 1808 onde permanecerá até 1821, ano em que regressa, por força da situação política, a Portugal.

Mas o Brasil já tinha vida própria e fora elevado a reino em 1815, parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, tendo D. João VI deixado o seu filho D. Pedro como regente do Reino do Brasil. A D. Pedro, herdeiro da coroa portuguesa e príncipe-regente do Reino do Brasil, é exigido, pelas Cortes portuguesas, o regresso a Portugal.

Mas D. Pedro afronta as Cortes, recusa a exigência e a 9 de Janeiro de 1822 (data que ficará conhecida por o “Dia do Fico”) declara a célebre frase 

Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Diga ao povo que fico. 

E, em 7 de Setembro do mesmo ano de 1822, D. Pedro assume a separação definitiva, junto ao rio Ipiranga:

Amigos, as Cortes Portuguesas querem escravizar-nos e perseguir-nos. A partir de hoje as nossas relações estão quebradas. Nenhum vínculo unir-nos mais. Tirem suas braçadeiras soldados. Viva independência, à liberdade e à separação do Brasil. Para o meu sangue, minha honra, meu Deus, eu juro dar ao Brasil a liberdade.

Independência ou morte!

Grito do Ipiranga

Duzentos anos depois, evocamos a famosa data. Parabéns, Brasil

E, igualmente, daqui enviamos os parabéns aos membros deste curso que decidiram que Setembro era (e provavelmente ainda é) um bom mês para nascer:

08SET (1943) Pedro Aires Trigo de Sousa Lencastre
18SET (1945) Carlos Bonina Moreno
25SET (1944) Fernando Ramiro de Medeiros Sousa

A todos um abraço.

E recordaremos também, no dia 3, o Francisco Pina (falecido em 2003), a 17 o Marques Bilreiro (falecido em 2005) e a 25 o Correia Graça, que igualmente já se não encontra entre nós.


terça-feira, agosto 30, 2022

Mais um ano

Inicia-se hoje o 17º ano de existência deste blogue, sendo inevitável lembrar o seu fundador, e não sentir tristeza por já não ser possível um real abraço de parabéns. Mas não podemos deixar de o relembrar, com saudade, e deixar registada o vazio que a sua ausência nos faz sentir.

Mais um ano se passou numa vivência apagada e de baixa colaboração. Nada de novo, já o Villas-Boas se entristecia com essa característica, a ponto de se poder perguntar se vale, ou não, a pena continuar. As estatísticas mostram nesta data cerca de 309 mil visitas nestes 16 anos de existência, um valor que mostra bem a falta de dinamismo.

Entremos portanto num novo ano, sem certezas, condições, planos ou esperanças de melhoria. 

Saudações aos leitores.


segunda-feira, agosto 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Agosto 2022

James Webb  (ver aqui ), o telescópio espacial lançado no dia de Natal de 2021 (JWST, James Webb Space Telescope) depois de um irrepreensível lançamento no dia de Natal de 2021, viu-se livre do lançador uma meia hora após o início da operação. Agora era com ele, tinha pela frente ainda um caminho longo de um milhão e meio de quilómetros para chegar ao seu posto de observação e uma delicada tarefa de montagem, dado que o escasso espaço disponível a bordo do foguetão Ariane originou uma ginástica de arrumação. Como o apoio do Space Telescope Science Institute (Baltimore, EUA) era imprescindível, logo após a libertação, foram activados os painéis solares e a antena de comunicações.

Doze horas após a libertação, e alguns ajustes, a dupla de motores propulsores arrancou, tendo funcionado um pouco mais de uma hora, dando início à viagem para o destino programado. Haveriam de funcionar mais duas vezes, deixando o telescópio na órbita planeada. Ao longo do trajecto, a montagem foi sendo feita, numa série pré-estabelecida de cuidadosos movimentos, verificações, ajustes e alinhamentos.

Infelizmente, por muito que o ambiente espacial possa parecer tranquilo, o certo é que os perigos existem. Um micro-meteorito que viajava disparado não se sabe para onde, colidiu com o JWST, atingindo-o num dos segmentos do espelho principal, que é o “olho” com que se conta para descobrir os segredos do nascimento do universo. o que aconteceu entre 23 e 25 de Maio. Felizmente não foi um acontecimento imprevisto, já que o telescópio foi concebido com características que lhe conferem alguma resiliência e, apesar de já defeituoso para além de qualquer possibilidade de reparação, verificou-se que o desempenho se mantém em nível adequado.

Talvez para o comprovar, uma vez aperaltado e depois de uma derradeira olhadela para verificar o bom estado da sua figura, umas imponentes 6,5 toneladas de massa (e peso nulo), um espelho com cerca de 6,5 m de diâmetro, formado por 18 segmentos e um enorme e original toldo de protecção solar, virou-se para o espaço lá (muito) longe, fotografou o que viu e enviou para a Terra o resultado.

Poucas fotografias, apenas 5. Mas um grande sucesso. O telescópio espacial James Webb mostra o universo com nitidez e profundidade nunca antes alcançadas, um excelente início de carreira, uma primeira muito boa impressão.

Cá na Terra, a guerra na Ucrãnia continua, indiferente aos progressos científicos. Um acordo, assinado em Istambul, na sequência de esforços da Organização das Nações Unidas e da Turquia, com o objectivo de permitir a exportação de cereais retidos na Ucrânia pelas operações militares, é, no entanto, uma prova de que é possível, ainda que difícil e demorado, o diálogo entre os beligerantes. É claro que o acordo vale o que vale, e se não for respeitado, esse valor será nulo, mas não deixa de ser um marco importante. Acresce que os cereais são exportados via marítima, envolvendo navios mercantes, com os seus problemas próprios (envolvendo armadores, disponibilidades, segurança, tripulações, por exemplo) que para serem solucionados terão de encontrar um novo equilíbrio após a interrupção devida à guerra.

Em sentido contrário, as autoridades da Federação Russa consideraram que, em virtude do fornecimento de armamento à Ucrânia (especialmente de armas de longo alcance), terão de alterar os objectivos da invasão, alargando-os para lá da libertação do Donbass para garantir a sua segurança. Pelo seu lado, as autoridades da Ucrânia desencadearam uma sucessão de demissões com o propósito anunciado de realizar uma "auto-purificação", que envolveu altos cargos, e justificações processuais de colaboracionismo, trabalho contra o Estado ou para o inimigo, incompetência e mesmo traição.

Com a guerra à porta, os países da zona do Euro viram a cotação da sua moeda atingir valores mínimos face ao dolar (EUA), a inflação a continuar a subir e um problema energético a agigantar-se à medida que o Outono se aproxima, sobretudo para os países do centro da Europa, muito dependentes, precisamente, da Rússia. 

Com as temperaturas elevadas de Julho, também regressaram os incêndios florestais, num ano em que a seca ameaça não só a Península Ibérica, onde a água armazenada em albufeiras se apresenta incomodamente baixa, mas também o resto da União Europeia, sendo alvo de vários alertas relativamente à diminuição do rendimento das culturas cerealíferas e de diminuição da produção de energia hidroeléctrica.

Na Escola Naval chegou ao fim a primeira fase do concurso para admissão de cadetes, verificando-se um total de 287 candidatos , tendo passado à segunda fase 258, que têm agora pela frente as provas físicas e de adaptação ao meio aquático.

Em Agosto, os seguintes elementos deste curso celebrarão mais um aniversário. Parabéns a todos.

01AGO (1943) Augusto Jorge dos Santos Lacerda Ferreira
03AGO (1946) António Carlos Rebelo Duarte
11AGO (1945) João Carlos Pina Correia Marques
16AGO (1943) José Armando Rodrigues Leite
25AGO (1944) António Maria Catarino da Silva

Recordamos também neste mês, a 17, o Varela Castelo (falecido no Hospital da Marinha em 1976), a 28, o Araújo Baptista (falecido em 2008) e o Calhau Feitoria a 31 (data do terrível acidente que o vitimou em 1999).

Por último, em 30AGO, completar-se-ão 16 anos de existência deste blogue do Curso Miguel Corte Real, sendo inevitável relembrar o seu fundador, o Villas-Boas.
 

 


quarta-feira, julho 20, 2022

Encontros do CR: Almoço em 19 de Julho de 2022


O Curso “Corte Real” assinalou, com um encontro, a chegada dos seus integrantes aos 80 anos, efeméride que ocorreu, pela primeira vez, anteontem, sendo protagonista o António José Correia Possidónio Roberto.

O evento realizou-se ontem, 19 de Julho de 2022, no Restaurante do INATEL em Sto. Amaro de Oeiras, local muito interessante, espaço leve, agradável e climatizado, com vista de mar sem paralelo (está localizado no paredão que percorre a praia), beneficiou de um magnífico dia, temperatura amena, ementa muito agradável (buffet) e preço camarada com serviço competente e simpático.

26 CR’s e acompanhantes cumpriram a preceito o programa, tendo deliberado revisitar o local, em momento não muito distante.

 


sexta-feira, julho 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Julho 2022

De acordo com Our World in Data (1) a população mundial em 2040 será de cerca de 9200 milhões de pessoas.  A energia primária global consumida em 2019 foi de cerca de 173300 TWh; um cálculo simples mostra que em 2040 a energia primária necessária para satisfazer as necessidades pode bem vir a ser pelos 230000 TWh.  Em 2000 a percentagem da energia obtida a partir do carvão, petróleo ou gás terá andado à volta de 77%, e em 2020 rondou os 79%, com as consequências ambientais inerentes, entre as quais as devidas à produção de gases com efeito de estufa (GEE), aos quais são atribuídas as alterações climáticas.

A questão de tornar sustentável a poluição mundial é, sem dúvida, um problema com solução não trivial, bastando um olhar para os números, que na sua simplicidade, o mostram. A disponibilidade de energia em quantidades suficientes é básica para as sociedades, a quantidade necessária está em crescendo e as desigualdades no seu uso são muito cavadas. A energia continuará, assim, a ser um produto necessário e procurado, num mercado lucrativo, qualquer que seja a sua origem.

Uma área em que se deposita uma boa dose de esperança para conter a poluição é a das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), nas quais a muito louvada digitalização se baseia. São tecnologias herdando de avanços  técnico-científicos de meados do século passado, que ganharam dinâmica longe das preocupações energéticas. Adquiriram estatuto de factor de progresso, de gerador de emprego, de melhoria dos serviços públicos, de maior produtividade, de expansão de mercados, de inovação e tendo mesmo servido de argumento eleitoral, por exemplo. Alvo de substanciais e lucrativos investimentos, penetraram profundamente nas sociedades e são actualmente mais do que importantes, mesmo imprescindíveis, sendo consideradas como a grande arma para dominar a degradação ambiental, e mesmo condição sine qua non para atingir esse objectivo. Foram, talvez, promovidas a milagre.

Como não há almoços grátis, e, se calhar, também não há milagres, as TIC têm  vantagens, mas também inconvenientes, sendo um deles o apetite por energia; outro é o crescimento que vem sendo observado (e o que se pode prever), estimulado por grandes ganhos obtidos no passado, que, no entanto, inevitavelmente tenderão a não se reproduzir no futuro. Isto é, os ganhos da digitalização, mundialmente considerada, poderão tender a não ser proporcionais aos investimentos nela feitos, correndo o risco de se tornar apenas marginais.

Que impacto será possível avaliar, da digitalização, na energia? Da introdução ao relatório Lean ICT Report (2), tenta-se um resumo e uma tradução:

O contributo da transição digital para o progresso é quase unanimemente considerado decisivo, seja qual for o nível de desenvolvimento da sociedade ou região geográfica onde se situa, sendo o investimento para ela encaminhado visto como fundamental para aumentar o bem estar social, quer pelas organizações geridas pelo estado quer pelas privadas. Mais ainda, cada vez mais se considera que sem a transição digital não será possível controlar as alterações climáticas.
Além disso, aquela transição está intimamente ligada a uma alteração comportamental já claramente observável, como se se verificasse intimidade entre o objecto e o portador: o equipamento digital como uma extensão do próprio indivíduo.
No entanto, os benefícios indirectos são geralmente sobrestimados, principalmente porque não é tido em conta o efeito de ricochete (“rebound efect”), que na transição digital se apresenta com risco elevado podendo levar uma série de efeitos incontrolável.
Ver nas tecnologias da informação algo “limpo” quando contraposto a outras indústrias, e livre de emissões de CO2, não é invulgar, talvez pela sua natureza intangível e miniaturização, gerando nos utilizadores uma percepção incorrecta.

Resumido de Lean ICT Report
The Shift Project, Introdução

Embora a medição dos consumos seja difícil e os valores difiram de estudo para estudo, as estimativas apontam para que o recurso às TIC, originem já mais emissões de CO2 do que a totalidade do tráfego aéreo, talvez mesmo próximo do dobro. Note-se que o Lean ICT Report foi publicado em 2019, isto é, antes de prováveis modificações significativas devidas à COVID19, sendo de esperar um aumento do recurso às TIC. Isto é, a pegada carbónica da digitalização já não pode ser ignorada. E a evolução prevista, mostra o mesmo estudo, é sempre crescente, embora dependente dos cenários estudados; apenas no cenário em que as condições envolvem a capacidade de “controlar as práticas de consumo” é previsível não se verificar crescimento. Isto é, a digitalização corre um elevado risco de vir a ser grande parceira na produção de GEE, a par com outros sectores tradicionalmente considerados mais poluentes.

São múltiplas as razões do crescimento, mas as principais indicadas no relatório são 4: o fenómeno dos telemóveis (“smartphones”), a multiplicação de periféricos (equipamento do dia-a-dia, com capacidade de comunicação com ou sem fios, quer para uso em casa quer ao ar livre), a internet das coisas na indústria (IIoT) e o tráfego de dados (vídeo e imagem associados a uma cada vez maior resolução, fornecimento em fluxo contínuo para “consumo” por medida, maior velocidade). Nenhuma destas razões parece ser boa candidata para diminuir o ritmo de crescimento.  

Uma das componentes do consumo de energia nas TIC é devida à execução dos programas e algoritmos, onde uma estratégia de melhoria também se mostra necessária, sobretudo nos casos dos processos mais exigentes, como por exemplo a inteligência artificial, a “tortura” dos dados volumosos (“big data”), a procura de cripto-moedas, ou simulações complexas.

Alguns números são esmagadores: quase 6 mil milhões de telemóveis sendo a população mundial na ordem dos 7,8 mil milhões (2020), dados transferidos por mês na internet 275 exabytes (2021), estimando-se uns 350 exabytes para 2022 (3), quase 5 mil milhões de pessoas usam a internet em 2022, por exemplo. 

Além dos efeitos no consumo de energia, ainda é de referir o uso de metais, alguns raros, cujo reaproveitamento apresenta dificuldades, e obtenção implica também danos para o ambiente, estando sujeitos a riscos de abastecimento, e pressão sobre os respectivos custos. De referir, igualmente, a reciclagem dos equipamentos em fim de (curta) vida, cuja solução está longe de ser encontrada.

Justifica-se a pergunta “Será a digitalização uma solução ou apenas mais um problema com o qual há que lidar?” Do artigo Our Digital Carbon Footprint (4) extrai-se um resumo e tenta-se a tradução da resposta:

Digitalização - Benção ou Maldição para o ambiente e para a sociedade?
É difícil uma resposta simples, sim ou não, quanto ao valor da digitalização no nosso mundo. A digitalização contribui efectivamente de inúmeras maneiras muito positivas para a sociedade e faz parte dela.
Mas tem fome de energia e gosta muito de matérias primas, algumas raras. Tem grande pegada carbónica, que não vemos, mas que não podemos ignorar, e só será possível atingir a sustentabilidade se aprendermos a usá-la racional e moderadamente. Precisamos de considerar os ciclos de vida completos, continuar a procurar a optimização no consumo e origem da energia e não esquecer alternativas aos grandes nomes do mundo digitalizado que promovam tecnologia que respeite o ambiente e a sociedade.
Precisamos de decisões informadas tendo em conta o ambiente, legislação adequada a nível internacional. Sem acção política esclarecida, consumos e danos ambientais não deixarão de aumentar
Resumido de Our Digital Carbon Footprint

 

Eis a resposta, “Não sabemos”, bem razoável e sensata, dada a dificuldade de opinar sobre o futuro. E também, paradoxalmente, útil, já que dela se infere que pode ser um problema, caso não sejam levadas à prática medidas adequadas, genericamente apontadas; isto é, de facto, estamos perante um “problema” (não necessariamente uma “maldição”).

Talvez não seja desrazoável imaginar que nos 20 anos mais próximos se verificará um aumento do consumo energético mundial, sendo de esperar um acréscimo de oferta com origens menos poluentes, mas que não dispensará o carvão, o gás ou o petróleo. Os GEE continuarão a ser produzidos, e a quota parte devida à digitalização tenderá a crescer.

A não ser que ....

Notas

  1. Our World In Data, https://ourworldindata.org
  2. Lean ICT Report - The Shift Project, https://theshiftproject.org/wp-content/uploads/2019/03/Lean-ICT-Report_The-Shift-Project_2019.pdf
  3. Digitalisation and Energy, https://www.iea.org/reports/digitalisation-and-energy
  4. Our Digital Carbon Footprint: What’s the Environmental Impact of the Online World?, Sarah-Indra Jungblut , https://en.reset.org/our-digital-carbon-footprint


oOo

 

Como um rastilho a que foi lançado fogo em 24FEV2022, e que termina no paiol da pólvora, nenhum dia passa sem que as circunstâncias em torno da guerra da Ucrânia se vejam ampliadas. Parece que, passo a passo, o conflito se consolida, expande e gera consequências capazes de amplificar ainda mais o seu âmbito, fazendo temer que o desenlace seja mesmo o rastilho levar a chama até ao paiol.

A União Europeia concedeu em tempo recorde o estatuto de candidato à Ucrânia, além de fornecer apoio de todo o tipo, gerando desilusão entre países que já tinham o processo de adesão em curso, possivelmente iniciando um processo que levará a modificações importantes no seu funcionamento.A NATO, na conferência de Madrid, modificou o seu conceito estratégico, vê crescer o número de membros e anunciou o aumento do número de efectivos militares em alerta, declarando a Rússia como principal ameaça; a disponibilidade para o aumento de verbas atribuídas a fins militares em cada um dos países membros consolidu-se. É possível que no segredo se desenvolvam conversações, mas ao público é divulgado o objectivo de só as fazer “em superioridade militar”, ou, dito de outra forma “a haver paz tem de ser nos termos dos ucranianos”. Posições que se explicam pelo desejo de mostrar força dissuasora e unidade perante a agressão da Federação Russa, mas que dificultam o estabelecimento de conversações e revelam aceitação da possibilidade de expansão da guerra.

O comércio mundial, já perturbado como consequência da COVID19, sofreu novo abalo, colocando problemas quer no abastecimento de energia, sobretudo aos países do centro da Europa, quer no abastecimento de cereais, dado que o escoamento através do Mar Negro ficou profundamente afectado pelas operações militares.

Em Sintra, realizou-se, já no fim de Junho, o Fórum do Banco Central Europeu, orientado para as políticas monetárias, onde, entre outras questões, se discutiu a nossa “velha amiga” inflação, entrada pé-ante-pé, como quem não quer a coisa, o que lhe valeu um estatuto de pouca importância, mas que se consolidou e cresce por estes dias, (8,7%, sendo o aumento da energia de 31,7%, dados publicados ontem), ameaçando corroer o poder de compra, cavar desigualdades, arruinar projectos, comprometer investimentos, por exemplo. 

Em Lisboa, também no fim de Junho, teve lugar a 2ª Conferência dos Oceanos da ONU, onde, a par com o desfile de problemas de que sofre o mar, seguem propostas para os minorar, declarações de empenho inquebrantável, propostas de novas explorações “sustentáveis”, olhares espreitando negócios à sombra da "sustentabilidade", palavras de ordem e listas de entidades dedicadas ao assunto, estando prevista para hoje, 1JUL, a assinatura da declaração final do evento.

Em 22MAI comemorou-se mais um dia da Marinha, desta vez em Faro, com a presença da Ministra da Defesa Nacional, e onde o Chefe do Estado Maior da Armada salientou várias iniciativas no campo da formação do pessoal, bem como a criação de uma especialização em Autoridade Marítima e anunciou “um navio completamente inovador, uma plataforma polivalente” que se prevê ser aumentado ao efectivo em 2026, bem como a decisão de construção de mais 6 patrulhas oceânicos.

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas foi celebrado como habitualmente a 10JUN, em Braga e em outros locais.

Em 29JUN abriu o concurso para admissão de cadetes na Escola Naval, cujo prazo decorre até 26JUL. 

oOo

Mas o objectivo principal desta nota é, acima de tudo, enviar os parabéns aos membros deste curso que  completam mais um ano neste mês de Julho, esperando que as respectivas comemorações se desenrolem sem contrariedades, com alegria e preenchidas em convívio familiar e de amizade. Parabéns, pois, e saudações a todos.

 

07JUL(1944) FILIPE HORÁCIO PEREIRA MACEDO
09JUL(1944) HUMBERTO RAMOS DA COSTA ROQUE
18JUL(1942) ANTÓNIO JOSÉ CORREA POSSIDÓNIO ROBERTO
29JUL(1944) ANTÓNIO MANUEL VARELA MARQUES DE SÁ
 
Recordamos também, com saudade, nas datas dos respectivos nascimentos, camaradas que já não estão entre nós: 
 
Em 03JUL(1945) o MÁRIO ALBERTO DIAS MONTEIRO SANTOS, em
09JUL(1945) o nosso camarada JOSÉ MANUEL BELO VARELA CASTELO e em 25JUL(1945) o JOÃO FURTADO DE AZEVEDO COUTINHO.



 

 

quarta-feira, junho 01, 2022

Aniversários de elementos do CR: Junho 2022

Neste mês de Junho os seguintes elementos deste curso celebrarão mais um aniversário:

 
 
 
07JUN (1945) Jorge Manuel dos Prazeres Escalço Valadas
08JUN (1945) Rui Coelho Cabrita
19JUN (1945) Luís António Proença Maia
23JUN (1943) Carlos Manuel de Vasconcelos Carrasco
27JUN (1943) José Manuel Narciso de Sousa Henriques
28JUN (1944) Fernando Moreira Pereira
30JUN (1945) Victor Manuel Bento e Lopo Cajarabille

A todos um grande abraço de parabéns!

Recordamos também neste mês:

O Luís Alberto Cristiano d'Oliveira, nascido em 06JUN (1943) e falecido em 27JUN (2012) e o Lino António da Conceição Pereira Machado, nascido em 06JUN (1943).