sábado, outubro 20, 2018

Encontros mensais do CR: Almoço 18OUT2018

Como previamente anunciado teve lugar no CMN no passado dia 18OUT2018 o encontro mensal do CR, prévia e antecipadamente divulgado pelo nosso organizador-mor ACFidalgo, com 16 (dezasseis) presenças. 
Depois dos aperitivos -para quem chegou a horas próprias conforme convocatória- junto ao bar, a fotografia que se vem tornando habitual na escadaria e fica registada nos Arquivos do Clube e a marcha até à sala de jantar onde decorreu o almoço: Sopa de legumes, um prato de pelo menos 3 à escolha (bacalhau à Zé do Pipo, cataplana de peixe e carne ou leitão), sobremesa e café na mesa, branco ou tinto a acompanhar o repasto.
Assinalando-se especialmente a presença do JOCA, estiveram presentes 16: ACAnaia,  ACostaeSilva, ACRDuarte, AFidalgo, AMdeSá, AVCunha, CBMoreno, EFCarvalho, FCaldeiraSantos, FSLourenço, HAFonseca, HCostaRoque, JCCorreiaMarques, JPVB, PReynaud e RMedeirosS.




Segundo o organizador o próximo almoço está previsto para 15NOV, 5ª Feira, em local já conhecido do Curso, na outra margem do Rio Tejo.
Fotos de FSLourenço e JPVB

CR's em actividade: FSLourenço nos Anais do CMN (5 de 5)

Já em Blantyre, na manhã do dia seguinte tivemos (todos os indivíduos atrás mencionados) uma última reunião com o Ministro Alek Banda, que tomou conhecimento dos desenvolvimentos ocorridos até então e, desde logo, quis conhecer o encargo financeiro estimado para a construção da Base (por fases). No entanto, os técnicos informaram só poder responder a essa questão após a recolha de uma série de dados e informações, entre os quais os elementos que me comprometi a coligir e enviar.
Foram também informados os circunstantes, nessa reunião, da intenção (segundo os israelitas, que a apresentaram) do Governo Malawiano incluir, no futuro, na Base Naval, uma escola de mergulhadores e uma estação de radar.
Aproximava-se, então, o fim da minha estadia no Malawi; o chefe da delegação dos M.Y.P., mr. NTaba, agradeceu a minha participação e informou-me que iria solicitar, pelas mesmas vias, o meu regresso ao terreno logo que a primeira fase dos trabalhos fosse iniciada.
Nesse mesmo dia, após o almoço, regressei a Moçambique. Embarquei no aeroporto de Blantyre em voo regular (com o apoio de mr. Zimba na passagem da fronteira) e desembarquei na Beira, agora apoiado de novo pelo dr. Silva e Costa.
No dia seguinte, voltei para Metangula, via Vila Cabral.
Posto o Comandante da Defesa Marítima ao corrente do que se tinha passado, para o que elaborei o respectivo relatório (tinha já deixado um documento semelhante ao engº Jorge Jardim22, através do dr. Silva e Costa), dediquei as semanas seguintes a compilar os elementos que me tinha comprometido a enviar para o Malawi.
Após reuniões com os Chefes dos Serviços do CDM, apresentando-lhes o quadro da situação para a qual eram solicitados a elaborar as respectivas sugestões de implementação de serviços homólogos na futura Base Malawiana, aqueles responsáveis entregaram-me, no prazo previsto, os elementos, abrangendo oito áreas: Abastecimento, Comunicações, Armamento, Serviço de Assistência Oficinal, Saúde, Pessoal, Serviços Gerais e Electrotecnia.
Nas cartas referidas, informei o engº Jardim e, também, os M.Y.P. que o Comandante Naval de Moçambique23 tinha autorizado a ida do tenente22 Marques Pinto24 juntamente comigo, numa próxima ida a Nkhata Bay, face à sua condição de técnico de mergulhadores.
O tempo foi passando. A Base começou a nascer, tendo-se tido conhecimento de alguns reveses na sua construção – terá havido um aluimento de terras, na sequência de enxurradas, em que morreram alguns operários –, o que fez atrasar todo o processo. Ao mesmo tempo, aproximava-se o momento da rotação da minha Companhia para Lourenço Marques, o que veio a acontecer em meados de Setembro.
Por estas razões e, eventualmente por outras que não conheci, não voltei, nessa altura, ao Malawi, nem tive mais qualquer outro contacto com o processo, pelo que desconheço a evolução que o mesmo teve a partir daí.
Em termos de balanço final, as coisas correram, penso, bem. Ainda assim, não será fácil para o comum das pessoas perceberem como é que um oficial da Marinha, ainda jovem, que só tinha passado pela Escola Naval e por navios, se transforma, de um dia para o outro (literalmente) num “expert” em instalações militares, nomeadamente bases navais… ainda por cima, competindo com profissionais de países que, por razões facilmente compreensíveis, não brincam em serviço, como era o caso dos israelitas.
Mas eu tenho uma explicação, imbatível: é o ADN. Os portugueses têm, no seu ADN, um nucleotídeo “endémico” da raça lusa: o desenrascanso, factor que faz com que mesmo perante situações intrincadas, muitas vezes, muito mais do que a que agora acabo de descrever, se resolvam por forma a cumprir a intenção ou o objectivo. Ao longo dos séculos, muitas vezes ajudou a termos conseguido descobrir o que descobrimos, a termos conseguido chegar onde chegámos. Penso, também, que aquele factor igualmente contribuiu, com uma quota-parte não despicienda, para termos conseguido gerir com dignidade, profissionalismo e eficácia uma guerra de múltiplos inimigos (alguns deles, amigos disfarçados), sendo difícil, ainda hoje, ser entendida a extraordinária capacidade de resposta que um País do tamanho do nosso conseguiu consistentemente evidenciar, durante mais de uma década, em cenários muito diferenciados.
22 O engº Jorge Jardim, muito simpaticamente, enviou-me, com data de 29 de Abril, o dia do meu regresso à Beira, uma carta em que me agradecia a colaboração e o relatório que fiz, informando-me que tencionava acompanhar-me na próxima visita “para apreciação mais definitiva do encaminhamento do assunto” 
23 CALM Jaime Lopes
24 Então 1º tenente Q.P. da classe de Marinha Manuel Marques Pinto, também piloto de um dos aviões ao serviço do C.D.M. e igualmente com o Curso de Mergulhador

sexta-feira, outubro 19, 2018

CR's em actividade: FSLourenço nos Anais do CMN (4 de 5)

Pareceu-me, aliás, claro, por alguns pormenores que foram deixando escapar durante a reunião, que os israelitas acompanhavam de muito perto a organização dos M.Y.P., quiçá coordenando a estrutura e supervisionando no plano operacional, devendo ter a seu cargo todas as matérias ligadas à segurança da Organização e das suas instalações).
Fui, então, informado que, no dia seguinte, o grupo iria apresentar o processo ao (super) Ministro das Finanças, Informação, Turismo e Economia do Malawi, Alek Banda (que igualmente tutelava os M.Y.P. e não tinha qualquer relação familiar com o Presidente Banda; tinha, sim, uma secretária lindíssima, loura, inglesa), que se encontrava em Rhumpi, uma pequena cidade ainda mais a norte de Mzuzu, junto ao Parque Nacional de NiyKa.
A 26 de Abril, de manhã, saímos de Mzuzu, numa curta viagem por estrada não muito cuidada, tendo-se iniciado, ainda antes do almoço, a reunião com o Ministro, que decorreu em pleno quarto do hotel, em Rhumpi, onde estava alojado, servindo a cama como mesa para apreciação dos documentos utilizados.
Para facilitar a apresentação da minha opção e porque calculava que ela iria ser contestada pelos israelitas, preparei, na noite anterior e com o inestimável apoio do Comandante Dentinho, um documento de duas páginas e, em anexos, esboços figurativos, que li na reunião. Após um debate relativamente vivo, em que houve que defender a essência das posições e responder a inúmeras perguntas, algumas de natureza técnica mais detalhada, e para agradável surpresa minha, o Ministro decidiu-se pela nossa visão, mandando avançar o processo nos moldes em que o propus.
Terminada a reunião, voltámos ainda nesse dia a Blantyre. Jantei com os meus dois interlocutores iniciais, mr. NTaba e mr. Zimba, aproveitando para os esclarecer sobre diversos aspectos inerentes à realidade de uma Base Naval.
Na sequência da decisão do Ministro Banda, houve nova reunião, no dia 27 de Abril, ainda em Blantyre, em que estiveram presentes, além do grupo anterior, mais um arquitecto (mr. Max) e um consultor técnico (mr. T. Miles), os quais me “crivaram” de perguntas, de resposta difícil no momento, com incidência no número e dimensão dos edifícios a integrar a Base Naval (partindo, segundo referiram, do princípio de que ela viria a albergar dez navios com características aproximadas às dos actuais – 17 m., 22 tons., 1,7m de calado –, além de uma força de intervenção estimada em cerca de cem homens). Avancei, no momento, com as indicações que me pareceram possíveis e pertinentes e ficou assente que, no próprio local, se definiriam melhor algumas dessas questões.
No dia seguinte, 28 de Abril, voltámos a Nkhata Bay, tendo os técnicos presentes na reunião do dia anterior podido apreciar as condições geomorfológicas da área seleccionada, identificando as condições para que a Base Naval ali viesse a ser implantada, atentos alguns constrangimentos relevantes, mormente na construção dos dois quebra-mares (de 100 e 50yds) integrantes da solução acolhida, que também previa a construção de uma doca seca ou, em alternativa, um ou mais planos inclinados – solução menos dispendiosa). Durante esta visita, os membros dos M.Y.P. avançaram com a possibilidade da construção, nas proximidades da futura Base, de um complexo aeroportuário básico, para aviões tipo Islander.
Em sequência, ficou acordado que eu apresentaria, via Comandante Ponce Dentinho e num prazo de cerca de duas semanas, um memorandum com a indicação de todas as infraestruturas necessárias, incluindo as características técnicas e dimensões, naturalmente em função dos elementos operacionais que me tinham sido transmitidos; ainda nessa visita ficou alinhavada, em primeira análise, a localização relativa daquelas infraestruturas.

quinta-feira, outubro 18, 2018

CR's em actividade: FSLourenço nos Anais do CMN (3 de 5)

Ao fim da manhã do dia seguinte segui, em avião dos M.Y.P. e acompanhado dos dois elementos daquela Organização, para Mzuzu, uma cidade no norte do país, próxima do local previsto para a Base: Nkhata Bay, localidade praticamente no paralelo do limite NW de Moçambique.
Chegados a meio da tarde, instalámo-nos num pequeno hotel e partimos para a primeira visita aos locais seleccionados, próximos um do outro, ambos a sul de Nkhata Bay.
À nossa espera, encontrava-se a “John Chilembwe”, uma das duas lanchas malawianas, comandada pelo 1º tenente da R. L.20 Fernando Santiago Ponce Dentinho21.
Ultrapassada a estupefacção e enorme surpresa deste Camarada (na verdadeira acepção da palavra – já maduro na idade, solidário, disponível, bom carácter), que desconhecia em absoluto o assunto, o grupo, a que se juntaram dois oficiais israelitas (T.Cor. Imba e T. Cor. Ramot) – facto de que não fui previamente informado –, seguiu para visita aos locais propostos para a Base, distando cerca de 1,5 mi. de Nkhata Bay.
Após uma rápida passagem, observadas as características das margens, a orografia da zona, identificados os ventos dominantes e, principalmente, aconselhado e apoiado pelo Comandante Dentinho, profundo conhecedor daquela margem do Lago, realidade com que eu me confrontava pela primeira vez, os malawianos quiseram desde logo saber a minha opinião sobre qual o local mais ajustado para implantação da Base.
Como atrás referido, os locais eram muito próximos, mesmo adjacentes; as diferenças entre ambos tinham principalmente a ver com o espaço disponível para instalar a Base, com todos os requisitos identificados e aceites, a protecção contra os ventos dominantes (de sul e noroeste) e a segurança militar das futuras instalações.
Ponderados, com a celeridade adequada à rapidez exigida pelos anfitriões e muito respaldado no senso e experiência do Comandante Dentinho, propus então o local mais a sul, de maior amplitude e também solução mais dispendiosa, mas a única a poder garantir os padrões de operacionalidade e segurança equivalentes aos seguidos na nossa Marinha; esta opção teve, desde logo, forte oposição dos israelitas (que, conhecendo muito bem o processo, valorizaram, certamente, mais os aspectos financeiros do empreendimento, talvez pela dimensão do suporte que se teriam comprometido a assumir.


20 Reserva Legionária.

21 A “John Chilembwe” foi uma das duas LFP’s cedidas ao Malawi pelo Governo Português, no âmbito da estratégia de defesa das águas do Lago Niassa; esta, era originariamente a LFP “Castor”(P 580) e foi cedida em 5AGO1968; a outra, a “Chibisa”, ex-“Regulus”(P 369), à época comandada pelo s/ten. RN Marques da Silva, passou ao Malawi em 21MAR1970. A “Castor”, construída nos Estaleiros Navais do Mondego, pertencia à classe “Júpiter”, deslocando 22/28 tons., comprimento 17,7m, potência 2x335 BHP, velocidade 12,7 nós; a “Regulus”, da classe “Antares”, construída pelo Estaleiro Navalis, deslocava 18/25 tons., comprimento 17 m, potência 2x276 BHP e velocidade 16 nós. Ambas tinham uma guarnição de 7 homens – Comandante, fogueiro e comunicativo, portugueses; os restantes, dos M.Y.P. – e igual armamento: uma Oerlikon 20mm. A.A. e duas MG 42, de 7,62mm.

quarta-feira, outubro 17, 2018

CR's em actividade: FSLourenço nos Anais do CMN (2 de 5)

À minha espera, estava o dr. Silva e Costa10 que, após as boas vindas, me levou para o Hotel Embaixador, estrutura, à época, com qualidade e bem inserida no todo harmonioso que era a cidade da Beira. Pelo caminho, informou-me que iria ser recebido pelo eng.º Jardim ao fim do dia, como aconteceu, pelo que deu para, durante o fim de semana e aproveitando um tempo magnífico, visitar a bela e airosa cidade e desfrutar de locais que só em África, naquela nossa África de então, existiam11.
Acabei então por ser recebido cerca das 23 horas, nos escritórios da Lusalite na Beira, pelo engº Jardim; apareceu com ar desportivo, de ténis, fresco como se estivesse a começar o dia. Muito afável, fez-me algumas perguntas de carácter pessoal (uma das primeiras, certamente por acaso, foi para saber o meu estado civil…) e de imediato passou à explicação da razão da minha ida ao Malawi: diferentemente do constante na mensagem inicial, o objectivo, afinal, seria o de “apreciar e sugerir algumas modificações, em caso justificado, no respeitante às normas de segurança a aplicar na futura Base Naval do Malawi, a construir próximo de Nkhata Bay”12. Após me ter informado da justificação “legal” para esta deslocação – iria, na qualidade de engenheiro electrotécnico, tratar de assuntos junto da “National Oil Company”13 -, o engº Jardim indicou-me que, ao contrário do que a mensagem referia, ele não me acompanharia nesta deslocação, terminando o encontro com votos de sucesso na missão.

Na manhã de 2ª feira, após deixar todos os meus documentos e outros elementos comprometedores (nomeadamente, a chapa de identificação militar usada pelos fuzileiros no Ultramar) ao cuidado do Comando da Defesa Marítima, recebi, através do dr. Silva e Costa (que me recolheu no hotel e me levou ao aeroporto), um salvo-conduto passado pela D.G.S.14.Mr. Zimba conduziu-me, então ao “Shire Highlands Hotel19, uma unidade hoteleira afastada do centro da cidade (ao que me explicou, por razões de discrição). Almoçou comigo e, à noite, levou-me ao “Mount Soche Hotel”, onde me apresentou o seu chefe, mr. NTaba, com quem jantámos.

Fiquei, então, a conhecer o interesse real dos malawianos na minha pessoa: não, o de “aconselhar a segurança de aquartelamento de fuzileiros a construir”, conforme mensagem recebida em Metangula; igualmente, não, o de “intervir na definição das normas de segurança da futura Base Naval”, mas sim o de “actuar como expert, tanto na construção e equipamento da Base Naval, como na escolha do local, entre duas hipóteses pré-definidas, adequado para a sua implantação”. Nada de mais, convenhamos, para quem não tinha qualquer histórico nessa matéria e apenas ia, razoavelmente, preparado para ajudar na definição das regras e condições de segurança da tal futura Base Naval, supostamente já definida e localizada, tema que, aliás, os meus interlocutores não quiseram nem abordar, por razões que em breve vim a perceber.

Cumpridos os procedimentos de embarque e após ultrapassar um episódio ocorrido na passagem pela alfândega, em que o agente policial de serviço terá achado estranho o facto de eu apenas possuir salvo-conduto, não apresentando passaporte ou B.I. (o que obrigou a uma última intervenção do dr. Silva e Costa, forçado a explicar a situação ao agente), embarquei num avião fretado para esta viagem (evitando assim usar a carreira regular). O aparelho, enorme para esta necessidade (com capacidade para cerca de 24 passageiros) levava a bordo apenas 2 pessoas – eu e o piloto – pelo que lhe fiz companhia no cockpit, tendo a viagem para Blantyre15 decorrido com uma conversa de “surdos”, em que o piloto, desconfiado, me questionava sobre quais os problemas que eu, enquanto “engenheiro electrotécnico”, ia resolver na “Oil Company”, ao que eu retorquia com comentários ao belo tempo que, naquele dia, se fazia sentir…
À minha espera, à chegada, estava o Comendador Pombeiro de Sousa, Cônsul de Portugal em Lilongwe16, acompanhado de um malawiano, mr. Zimba, “Oficial de Ligação” dos “Malawi Young Pioneers” (M.Y.P.)17.
Após as apresentações, Pombeiro de Sousa deixou-me um contacto para qualquer eventualidade (apesar de o ter tentado, tal nunca foi possível, certamente por razões de agenda do Cônsul…), informou-me que a minha presença não era, nem podia vir a ser, do conhecimento do nosso Embaixador18 e retirou-se para ir jogar golfe.


10 Amadeu da Silva e Costa, de formação em Veterinária e pai de um Oficial da Armada, exercia, em Moçambique, a sua profissão em empresas do sector da pesca, ao mesmo tempo que se constituía como o “braço direito” do eng.º Jorge Jardim em múltiplas das suas actividades, designadamente as ligadas às relações entre Moçambique e o Malawi, de que era também Vice-Cônsul Honorário na Beira.

11 A Beira, capital da Província de Sofala, originariamente designada de Chiveve, assumiu o estatuto de cidade em 1907 e, à época deste episódio, era um dos destinos de férias preferenciais dos rodesianos, pelas praias da orla marítima que se estendia desde o Grande Hotel (inaugurado em 1955, anunciado como o “orgulho da África” e considerado como o maior e mais requintado hotel do Continente Africano, palco de grandes festas e recepções, como a do casamento, no fim dos anos 60, de uma filha do engº Jorge Jardim com um jovem e muito qualificado Oficial da Armada), até ao farol do Macuti. Dispunha de um porto bem equipado, com ligações à Rodésia e ao Malawi, tendo outras atracções turísticas, como por exemplo a sua Catedral e a Estação Ferroviária, construída nos anos 60 do século passado. Usufruía, igualmente, da proximidade ao magnífico Parque da Gorongosa, a cerca de 170 km a NW.
12 Capital do distrito com o mesmo nome, no norte do país.
13 Companhia Petrolífera do Malawi, com sede na capital, Lilongwe e onde a influência portuguesa era eficaz, embora muito discreta, atenta a realidade geo-política daquela zona de África o engº Jardim indicou-me que, ao contrário do que a mensagem referia, ele não me acompanharia nesta deslocação, terminando o encontro com votos de sucesso na missão.
14 Direcção Geral de Segurança, delegação da Beira.
15 A 2ª cidade do Malawi, já então considerada a “capital” financeira e comercial do país, por contraponto à capital Lilongwe.

16 Pombeiro de Sousa, um português radicado no Malawi desde 1946, elemento fundamental para, em articulação com Jorge Jardim, efectuar o condicionamento, a favor dos interesses de Portugal, da política daquele país.

17 Braço paramilitar do Partido do Congresso do Malawi, do dr. Hastings Kamuzu Banda, inicialmente criado como programa do Serviço Nacional da Juventude e respectiva agenda de desenvolvimento. Ao longo do tempo, esse foco foi esquecido e a organização, treinada para o efeito por Orlando Cristina, um operacional que integrou o universo Jorge Jardim a partir de 1965, tornou-se numa intrincada rede de espionagem e terror, constituindo-se como factor decisivo na criação de um regime de partido único no país, funcionando simultaneamente como Corpo de Guarda Pessoal do Presidente Banda.
18 Vasco Futscher Pereira, que depois de 1974 integrou, como MNE, o VIII Governo Constitucional e com quem Jorge Jardim não tinha uma relação aberta.

terça-feira, outubro 16, 2018

CR's em actividade: FSLourenço nos Anais do CMN (1 de 5)

Já aqui tínhamos referido a colaboração do nosso camarada FSLourenço nos Anais do CMN do 1º Semestre de 2018. Aproveitando a difusão do mesmo artigo feito por outro camarada CR,  o ACRDuarte, achámos que seria de interesse a sua divulgação pelos membros do Curso, especialmente pelos que por razões várias deixaram de ser ou não chegaram a ser sócios daquele  Clube.

(Santos Lourenço, CDU 323.272ABRIL74, Anais do Clube Militar Naval, Vol. CXLVIII, janeiro-junho 2018) 
PO, Que futuro? História – Guerra colonial: MEMÓRIAS E VIDA - A BASE NAVAL.
O filme – projectado no campo de jogos do Comando da Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa (CDMPLN) –, suave, romântico, aproximava-se do fim, embalando a assistência – militares e, principalmente, familiares –num deleite prenunciador do fim feliz comum à maioria das fitas mais sonantes da década de sessenta do século passado.
A temperatura, quente mas confortável, naquela cálida noite de 21 de Abril de 1972, igualmente contribuía para que, na Base Naval de Metangula1, integrada no CDM2 e instalada num pedaço do paraíso banhado pelo Lago Niassa (que outros chamavam de “Lago Malawi”), as pessoas antegozassem mais um fim de semana de descanso, com razoável garantia de que nenhuma perturbação alteraria este quadro, como tinha acontecido nos meses anteriores e continuaria nos seguintes.
Os meus afazeres, nessa semana a findar, estavam, pensava eu, terminados: a minha Companhia de Fuzileiros não tinha pessoal em operação no exterior, garantindo apenas a segurança das instalações do CDMPLN; o Serviço de Vigilância e Polícia, de que, por inerência, eu era igualmente Chefe, cumpria as medidas do nível de segurança em vigor; o Estado-Maior, onde tinha uma função, só reabriria na 2ª feira seguinte e o Centro de Comunicações, que também chefiava por ser da “arte”, mantinha a operacionalidade H24 com a marca de qualidade técnica e profissional que a Marinha, por esses anos, soube imprimir às Comunicações Navais3, o que fez com que este Ramo tivesse liderado e sido a base da operacionalidade das Comunicações Militares em várias décadas do século passado.
É então que, discretamente, o Comunicativo de serviço se aproxima e me sussurra que tinha chegado uma mensagem, Urgente, pedindo-me que o acompanhasse para efectuar o respectivo processamento; intrigado, nem acompanhei o fim (já conhecido, de outras soirées…) do filme e dirigi-me ao Centro de Comunicações.
A mensagem, enviada pelo Comando Naval de Moçambique Avançado4, determinava, então, que o Comandante da Defesa Marítima “deverá fazer seguir” para a Beira, no avião da DETA5 que partia de Vila Cabral (actual Lichinga) no dia seguinte, “um oficial, de posto, pelo menos, primeiro-tenente, possivelmente o Comandante da Companhia nº 10 de Fuzileiros”– a minha, única naquele sector operacional. O mesmo documento definia que o oficial escolhido “deverá seguir para o Malawi em missão referida verbalmente ao Comandante da Defesa Marítima em Nampula”, esclarecendo que essa missão “consiste deslocar-se norte Malawi”, acompanhado do “Comandante Sousa, de quem receberá instruções a fim de aconselhar na segurança ao Aquartelamento de Fuzileiros Navais a construir aquele local”; a mensagem finalizava com a informação de que o “Comandante Sousa fornecerá passaporte, devendo seguir trajo civil”.
Ganha a coragem suficiente, dado o adiantado da hora, para informar o Comandante da Defesa Marítima6, lá fui comunicar-lhe a ordem recebida; tal como referido na mensagem, já era conhecedor do assunto, pelo que confirmou a minha deslocação e me passou informação detalhada, da qual constava um facto inesperado e, para mim, muito surpreendente: o “Comandante Sousa”, que me receberia na Beira, era nem mais nem menos que o engº Jorge Jardim7
Mal refeito das novidades daquele fim de dia, fui para casa8. Preparei uma pequena mala com o indispensável para uma missão ainda muito pouco definida, contei à mulher uma história “meio redonda” para justificar a deslocação e no dia seguinte, cedo, embarquei no CESSNA9 com destino a Vila Cabral, onde apanhei o voo DETA para a Beira.


1 Nome tradicional da localidade, oficialmente alterado em 1963 para “Augusto Cardoso”, em homenagem ao Cap. Frag. Augusto de Melo Pinto Cardoso (1859-1930), administrador colonial e explorador, ainda no séc. XIX, em zonas de África praticamente desconhecidas; o actual Hotel Cardoso, em Maputo, construído em terrenos que pertenceram àquele ilustre Marinheiro, dele recebeu o nome,
2 Nesta data, o CDM dispunha de instalações de assinalável qualidade e adequadas ao cumprimento da missão atribuída: um Edifício do Comando e da Capitania onde, para além dos Serviços, estavam instalados o Centro de Comunicações, Estação Rádio-Naval e Enfermaria; dois Blocos, no total de 10 moradias, dois Aquartelamentos, com refeitório, cozinha e câmaras frigoríficas; Torre de vigia e Depósito da água, com Farol instalado no topo; Central eléctrica com 3 geradores; Depósito para material; duas Garagens; Iluminação pública; Vedação exterior, em arame farpado e, junto à baía, a Casa das máquinas das bombas de água, o Serviço de Assistência Oficinal (carpintaria e serralharia) e um plano inclinado, na praia, junto à Ponte-cais das Lanchas. Dispunha ainda de uma pista para aviões até DC-7, de um campo de jogos e de uma piscina, para além de outras estruturas de menor dimensão.
3 Obra de um grupo de militares, de extraordinária capacidade, competência, conhecimento e visão, no qual pontificou, de entre outros, o VALM Pedro Moreira Rato, muito justamente homenageado pela Marinha, que em 6 de Dezembro de 2017 atribuiu postumamente o seu nome ao actual Centro de Comunicações, de Dados e de Cifra da Marinha.
4 Estrutura criada no fim dos anos 60, em Nampula, visando concentrar nesta cidade do nordeste moçambicano, mais próxima das zonas de conflito, os Comandos Operacionais dos 3 Ramos, facilitando e agilizando assim a gestão da guerra.
5 Divisão de Exploração dos Transportes Aéreos dos Caminhos de Ferro de Moçambique, criada nos anos 50. Já na década de 70, pouco antes da independência, mudou a designação para DETA-Linhas Aéreas de Moçambique, de que resultou a actual designação: LAM.
6 Cap.m.g. Joaquim Gormicho Boavida, pessoa circunspecta, não muito comunicativa mas um militar competente, rigoroso e defensor de uma disciplina marinheira – mais participada que imposta – e que deixou saudades logo após a sua saída.
7 Jorge Pereira Jardim, nascido em Novembro de 1919, à data exercendo as funções de Cônsul Honorário do Malawi na Beira, engenheiro agrónomo de formação, na realidade, diplomata, político, guerreiro, agente secreto e empresário; no dizer de Pedro Vieira, um homem que “superou a pequenez do regime do Estado Novo com acções que desafiam a imaginação humana, fazendo a sério o que James Bond faz nos filmes…”. Podemos afirmar que, se as suas ideias tivessem sido avocadas pelo poder de Lisboa, parte substancial da África Austral teria hoje outros matizes.
8 Os militares com família em Metangula habitavam no exterior da Base, em casas maioritariamente construídas, no espaço a caminho da pista de aviação, por um português da metrópole ali radicado, o Neves.
9 O CDMPLN dispunha, à época, de 2 meios aéreos, quais “sucessores” dos primórdios da nossa Aviação Naval: 1 monomotor CESSNA 182/E, matrícula CR-A3T, de asa baixa, 4 lugares e 1 monomotor DORNIER DO 27, pilotados, à época, por um oficial dos QP´s, o 1º ten. Marques Pinto e por um oficial RN, o 2º ten. Rodrigues. Por razões de natureza legal, os aparelhos pertenciam ao “Aeroclube de Metangula”, estrutura que só existia para este efeito. Durante a maior parte do ano de 1972, o DO 27 esteve deslocado na Beira, em manutenção.

segunda-feira, outubro 15, 2018

CR's em actividade: Cadernos Navais, nº 10 - JUL/SET 2004

Escapou-nos neste blogue, ou talvez não e a memória é que nos atraiçoa, a referência a estes Cadernos Navais Nº 10 - Julho-Setembro 2004, intitulados A ESTRATÉGIA NAVAL PORTUGUESA (Ciclo de Conferências no Instituto Superior Naval de Guerra):

Essencialmente porque neste número e independentemente do seu grande interesse, ter nele havido a participação de três elementos do CR (um dos quais CRHC), assim citados:
O Poder Marítimo e o Poder Naval - A Perspectiva Contemporânea
-O Poder Naval na Acção Diplomática (Pgs 83-93) Lopo Cajarabille
Uma Estratégia Naval para Portugal
-A Modernização da Esquadra: os requisitos, o planeamento e a evolução (Pgs 179-189) Silva da Fonseca
- Nota de encerramento (Pgs 207-214) Rebelo Duarte



domingo, outubro 14, 2018

Os Cem Anos do combate do caça-minas "Augusto Castilho" na I GM

Neste dia 14 de Outubro de 2018 comemora-se o 100º aniversário do combate do caça-minas "Augusto de Castilho" contra um submarino alemão.
Em homenagem aos heróicos marinheiros da Sua guarnição, o EFC (CR32) enviou-nos o seguinte texto sobre a efeméride, retirado do que será colocado na secção "Os Anais há 100 anos" do número a editar neste 2º semestre:


  O nº dos Anais do Clube Militar Naval do 2º semestre de 2018 será dedicado à I Grande Guerra Mundial.
  A crónica “Os Anais há 100 anos” não podia ficar à margem da oportuna e louvável iniciativa da Comissão de Redacção.
  Em 14 de Outubro de 1918 aconteceu o combate do caça-minas “Augusto de Castilho” contra um submarino alemão.
  Aqui fica um resumo breve do que virá ao “lume de água” no citado nº dos Anais:

* * *
  O Tomo XLIX – editado em 1918 -  integra um número especial dedicado, em exclusivo, ao combate do caça-minas “Augusto de Castilho” contra um submarino alemão, em 14 de Outubro de 1918. É a merecida homenagem do Clube Militar Naval à pleiade de heroicos e valentes marinheiros, cujo feito jamais se apagará dos anais da Marinha de Guerra Portuguesa.
  Na primeira página está colocada a fotografia do comandante, 1º tenente Carvalho Araujo. Na seguinte, figura a relação dos marinheiros que perderam a vida.


MORTOS PELA PÁTRIA NO HERÓICO COMBATE DO CAÇA-MINAS “AUGUSTO DE CASTILHO”, CONTRA UM SUBMARINO ALEMÃO EM  14 DE OUTUBRO DE 1918:

José Botelho de Carvalho Araujo, 1º tenente, comandante
Carlos Eloy da Mota e Freitas, aspirante de marinha
Elisio Martins Nova, 1º marinheiro telegrafista, nº 6431
Manuel Cruz Branco, 2º marinheiro, 305 A
Manuel Joaquim Oliveira, 2º fogueiro, 443 A
Manuel Tomé, chegador, 499A

 (Nas restantes páginas estão “fundeados” vários textos, entre os quais uma notável narrativa dos incidentes, da autoria de Henrique Lopes de Mendonça).

*   *
O combate do “Augusto Castilho”
(...)
  No desempenho do honroso encargo, navegava o caça-minas pelo Atlântico, na manhã de 14 de Outubro de 1918, comboiando o paquete S. Miguel, que, desarmado, repleto de carga e passageiros, com ele havia partido do Funchal, na ante-véspera ao comêço da noite, com destino a Ponta Delgada. Eram 6 horas (tempo de Greenwich); a atmosfera apresentava-se clara e bonaçosa, e uma vaga curta de nordeste empolava a superfície ungida pelos alvores matinais.
  A situação do comboio, a essa hora, era 35° 30' de latitude Norte por 22° 10' de longitude Oeste de Greenwich.
  O comandante do caça-minas, primeiro tenente José Botelho de Carvalho Araujo, acabava de render no quarto o seu imediato, o guarda-marinha Manuel Armando Ferraz. Eram êles os dois únicos oficiais de navegação, os quais, alternando fatigantes quartos de seis horas, tinham apenas a coadjuvação subalterna de dois aspirantes, alem dos oficiais inferiores de manobra.
  Nada de anormal se avistara até então, Enquanto o imediato, galhardo beirão de 21 anos, em cujos olhos peninsulares radiava inteligência e decisão, descia ao camarote, na lisongeira expectativa de um breve e bem ganho sono, o comandante erguia sobre a ponte a pouco alentada estatura, alongando a vista pelo horizonte límpido.
  Não decorrera um quarto de hora, quando, súbito, um brado da vigia, repetido por dezenas de vozes, levanta a celeuma a bordo:
  -Submarino, submarino!
(…)
  O combate do caça-minas Augusto de Castilho, com todos os incidentes que o acompanharam, ficará de óra avante inscrito nos anais heróicos da marinha portuguesa. Com digna continuação das épicas façanhas que no passado a ilustraram. O nome do tenente Carvalho Araújo, que nobremente sacrificou o seu navio e a sua vida para salvar os haveres e as vidas confiadas à sua guarda, será como um farol de glória que, na constelação esplêndida dos nautas de Portugal, iluminará as futuras gerações de marinheiros. Ele e os seus valorosos camaradas do Augusto de Castilho pertencem à pleiade sublime de que fala o grande épico:
                                    De quem feitos ilustres se souberam,
                                    De quem ficam memórias soberanas,  
                                    De quem se ganha a vida com perdê-la,
                                    Doce fazendo a morte as honras dela.
                                                                                                       Henrique Lopes de Mendonça

quarta-feira, outubro 10, 2018

CR's em actvidade: Nos Anais do CMN Jan/Jun2018

Nos Anais do Clube Militar Naval, de Janeiro a Junho de 2018, recentemente publicados, participaram dois camaradas do CR:
Nas páginas 185-192 em "OS ANNAES HÁ 100 ANOS", uma colaboração que já vem de longa data do F.C. (para nós EFC), esta versando especialmente o que neles se escreveu sobre o Batalhão Expedicionário de Marinha a Angola na I Guerra Mundial, e nas páginas 173 a 183, do F.S.L., um muito interessante e histórico (também divertido) artigo "Memórias e Vida - A Base Naval"*,  que se reporta ao tempo duma Comissão por este realizada em Moçambique, em que a dado passo foi oficialmente incumbido duma missão solitária ao Malawi como "perito em construção de bases navais".

Nota*: O texto completo está disponível em Word e já foi difundido ao AIG CR por mail pelo nosso camarada ACRDuarte.

sábado, outubro 06, 2018

Memórias dumas férias escolares do CR em 1964


Corria o Verão de 1964 e um pequeno grupo de cadetes do nosso CR , quatro ou cinco, planeava uma ida de férias ao Algarve. Um ou dois tinham Matemáticas Gerais para 2ª época pelo que o tempo disponível para aquelas pequenas férias conjuntas era reduzido. Definido o destino final, Quarteira, iniciou-se o planeamento com ênfase na logística. Sem tendas, alguém sugeriu que se levantassem na escotaria uns panos de tenda e uns ferros de fixação, processo que sabíamos possível e estar autorizado. Panos que, por serem utilizados no chão para limpeza das armas, tinham algumas manchas de óleo que já não saíam. Escolheram-se os melhores, dois por cabeça. Na reunião preparatória definiram-se alguns encargos, quem levaria um fogareiro a petróleo, alguns alimentos entre os quais sopas Knorr e conservas, um fato completo e gravata para o caso de se ir ao Casino. Definidos os horários de partida (de noite) e o percurso, de Lisboa via fluvial até ao Barreiro e de comboio até Loulé, onde então teríamos que avaliar o horário do transporte em camioneta até Quarteira. Chegados a esse primeiro destino de madrugada, tudo ainda fechado, só cerca de 3 horas depois foi possível dar início a essa parte do percurso, já com o tempo mais quente, parando diversas vezes no caminho para embarque de mais passageiros. Já em Quarteira e ansiando por um banho de mar, tivemos primeiramente que escolher o local da montagem das duas tendas, lado a lado, em plena praia porque na altura não havia impedimento. Concluída a montagem e colocados dentro os objectos transportados, sempre de gatas porque a altura da tenda não permitia outra solução, confrontámo-nos com outras tendas ao lado, recém-chegadas, novíssimas e de cores fortes, predominando o azul e laranja, no interior das quais se podia circular de pé, com cadeira de braços e outros confortos de que muito sentimos a falta nos dias seguintes.
Feito esse arranjo inicial ansiava-se pelo primeiro banho de mar, que para quem vinha habituado às praias do Norte foi uma verdadeira desilusão. Um autêntico caldo que não refrescava, sem qualquer onda! Para este grupo jovem, a alimentação não era assunto despiciendo e para a primeira refeição, em resultado dum percurso exploratório na zona, descobrimos uma pequena tasca a preços compatíveis com o ordenado de cadete, de duzentos e noventa e nove escudos ilíquidos, já deduzido um escudo de imposto de selo. Sopa e um prato do dia com direito a um copo de vinho de Lagoa, por cerca de seis escudos. Não era opção que pudesse ter continuidade e outras havia que procurar, até para dar uso ao fogareiro, a petróleo, previsto na fase de planeamento.
Descoberta uma ribeira duas centenas de metros adiante com sinais evidentes de vida, preparámos os apetrechos de pesca à linha, tendo, após algumas horas de esforço e sob um Sol abrasador, obtido o excelente resultado dumas dez enguias. Havia então que proceder à preparação do jantar ainda com a luz do dia e conseguiu-se um voluntário para a preparação da ementa decidida, enguias fritas com arroz. Foi a primeira e única vez que o fogareiro a petróleo trabalhou tal era o cheiro desse combustível que ali permaneceu uns dias, também na mala que levava o fato completo (que não chegou por falta de oportunidade a ser utilizado). O improvisado “Chef” - nomenclatura que então ainda não estava muito difundida -, utilizando um pacote de margarina de um quilo que se havia comprado, usou meia embalagem para fritar as enguias e a outra metade para cozinhar o arroz. Começámos por comer as enguias mas perante o aspecto do arroz, completamente amarelo e empapado, deixámos o cozinheiro, que tinha andado no Colégio Militar, defrontar-se com esse “petisco”, decidindo rumar à tal tasca, onde, apesar do custo, tivemos uma refeição decente.
Eliminado o fogareiro das nossas actividades mas não o cheiro a petróleo que ali permaneceu os restantes dias, optámos por uma solução que nos parecia económica e eficaz, de utilizar como combustível imensa madeira que havia espalhada pela praia. Tudo acções já não permitidas nos dias de hoje e actualmente apenas autorizadas se requeridas e fundamentadas. Cavado na areia um buraco largo e pegado fogo que demorou algum tempo a acender dada a humidade concentrada na madeira, começou a desenvolver-se tal fumo que mais parecia uma cortina de nevoeiro e, dada a direcção do vento, envolveu rapidamente os banhistas que se encontravam na água quase deixando de se verem. Rapidamente tivemos que pôr fim a tal iluminada ideia, afastando-nos do local como se nada tivéssemos a ver com o assunto.
Depois de mais uma ou duas noites mal dormidas e mais desconfortáveis do que a imaginação de dormir na areia fazia prever, para além da entrada e saída da “tenda” de gatas, o grupo desmantelou-se. Quem do pequeno grupo tinha segunda época e logo nas Matemáticas Gerais - que foram responsáveis pela passagem de vários elementos ao HC – terminou logo ali as mini-férias. Os que ali permaneceram, ao que soubemos, não chegaram a ir ao tal Casino nem a qualquer das festas que se tinham imaginado, mas ainda usufruíram de mais uns dias até ao início das aulas do 2º ano nos princípios de Setembro.

JPVB

quarta-feira, outubro 03, 2018

Encontros mensais do CR: 13OUT2018 (0)

MSG recebida nesta data da Comissão Organizadora dos nossos Encontros:

Camaradas e amigos,
Estão todos convidados para o próximo almoço no Clube Militar Naval, a realizar no dia 18 OUT (5ª Feira), a partir das 12H 30M. 
Desta vez é na 3ª semana, porque o último se realizou no dia 30 SET. e que constou como é sabido de um passeio de barco no Zêzere com as mulheres e que incluiu almoço. (Já foi publicado no nosso blog a notícia acompanhada de algumas fotos.)
Solicito inscrição até ao fim da manhã de 16 Out2018.
Um abraço da Comissão Organizadora
ACFidalgo

CR's em actividade: EFCarvalho e "Os Anais há 100 Anos" dos Anais do CMN

Saudações Navais!
Dois anos após o regresso do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola, o 1º tenente Oliveira Pinto tornou público nos Anais de 1918  (cinco números) a acção do Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola.
Na crónica " Os Anais há 100 Anos" presente no  1º volume do 1º semestre 2018 dou a conhecer, parcialmente, esse valioso texto, que retrata, de forma eloquente o dia a dia daquela unidade, desde a preparação até ao regresso a Lisboa.
Retirei uma curta passagem do artigo para eventual colocação no Nosso blog.
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Votos de uma semana agradável
EFC 
(CR32)


Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola

  Em fins de Outubro de 1914 começou a falar-se em Lisboa de que se pensava em organizar um batalhão de marinheiros, a fim de ir em reforço das forças do Exercito que haviam partido para Angola sob o comando do tenente-coronel Roçadas, na hipótese de um recontro possível, senão inevitável, com forças da colónia alemã, que confinava ao sul com a nossa; tanto mais que se ia definindo a atitude de Portugal perante o grande conflito europeu. Já a esse tempo se iniciara a organização de um contingente expedicionário do Exercito para os campos da Europa.
  A idéa de se ter recorrido á Marinha para se constituir aquele reforço julgo-a resultante, principalmente, de se ter pensado em que todas as expedições coloniais tinham entrado contingentes de marinheiros, prestando sempre relevantes serviços, devidamente apreciados pelos comandantes, quer pela sua resistência naqueles climas, quer por decisão e valentia, de que sempre deram provas.
  Lançado que foi o convite á Armada, apareceram alguns oficiais que se ofereceram, outros que aceitaram o convite directo que lhes foi feito, e outros que aguardaram o momento da sua nomeação. No Corpo de Marinheiros foi tão grande o numero de voluntários que difícil foi fazer a selecção dos que deviam ser incorporados. 
  Para comandante foi convidado o então capitão-tenente Alberto Coriolano da Costa, oficial que já tinha entrado em operações em África e que tinha bastantes conhecimentos da região em que se teria de operar, por isso que fôra Governador de Mossamedes. (...)
  Para mostrar a boa vontade e entusiasmo com que trabalharam todos os que contribuíram para essa rápida mobilização, e em especial aqueles que iam partir, bastará dizer que o contingente de marinheiros, a que se chamou Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola, constituído por três companhias a dois pelotões, duas secções de metralhadoras, serviços de saúde com três médicos, e secção de quartéis com dois oficiais da Administração Naval, embarcou no dia 5 de Novembro, isto é, cinco dias depois de feitas todas as nomeações. Tanto basta para se ajuizar do trabalho enorme de organizar tudo o que uma força de 18 oficiais, 32 sargentos e 500 praças necessita para uma comissão de tal natureza, com pessoal que pouco ou nada tem preparado para os respectivos serviços; sendo de notar que, entre eles, muitos eram bem diferentes dos que são de uso na Marinha; até houve de tratar-se de gado e respectivos arreios! Tudo se fez em cinco dias, porque, como disse, a boa vontade e entusiasmo eram gerais, trabalhando todos no que lhes competia: uns dando ordens, outros transmitindo-as e outros cumprido-as sem a menor hesitação. (...)
  No dia 5 de Setembro de 1915, dia que deverá ficar memorável na historia das nossas campanhas coloniais, foi içada pela primeira vez com as devidas honras a nossa bandeira na Ngiva, capital da vasta região Cuanhama.
  Do Batalhão de Marinha havíamos chegado até ao fim das operações 12 oficiais e 267 praças, isto é, sensivelmente metade dos que tinham partido de Lisboa. (...)
  E quando, por fim, no dia 15 de Outubro de 1915 desembarcamos em Lisboa, poderia parecer que regressávamos de um simples passeio: Quantos assim o julgariam? (...)
  No dia 25 de Outubro foi dissolvido o Batalhão Expedicionário a Angola, sendo louvados pelo seu comandante alguns sargentos que mais se distinguiram, e umas 30 praças que, mais doentes, conseguiram chegar até ao fim das operações.. Posteriormente, no boletim das Colónias, foram louvados todos os oficiais, 7 sargentos e 28 praças. Só depois de um ano foram concedidas as medalhas comemorativas e só actualmente vão sendo condecorados, principalmente com a medalha de valor militar, os oficiais, sargentos e praças.
  Sª. Exª o General Pereira de Eça legou, como é sabido, a sua espada à Corporação da Armada. Cumpriu assim a promessa que nos fizera, no fim das operações, de testemunhar clara e publicamente o apreço em que mostrou sempre ter os serviços do nosso Batalhão. Este facto, só por si, constitui a maior prova de quanto as forças de marinha contribuíram para poder desempenhar a sua espinhosa missão, gloriosamente, como o fez.

(F. Oliveira Pinto, 1º Tenente, Anais do CMN, volume XLIX,1918)