F.S.Lourenço
A Marinha em
Moçambique
As praxes no Niassa
A
Marinha de Guerra Portuguesa, o Ramo mais antigo das nossas multicentenárias
Forças Armadas, sempre sustentou a sua imagem e desempenho num quadro de
relacionamento social único, peculiar, inconfundível e universalista, assente no
seu capital humano. Tal permitiu-lhe, como regra, optimizar os restantes
vectores estruturais, de natureza material, financeira ou organizacional.
A
Marinha que eu conheci foi assim, sendo mais evidente esta implícita hierarquia
de valores em fases de grande crescimento na quantidade e qualidade de meios,
como ocorreu na década de 60 do século passado com a aquisição de um avultado
número de navios de superfície e de submarinos, a que correspondeu um
significativo incremento nas suas capacidades tecnológica, científica e
operacional. Como é sabido, esta situação repetiu-se em momentos posteriores,
embora com características e dimensões diferentes.
Certamente
que diversos factores concorreram, ao longo dos tempos, para que esta realidade
– organização de cunho marcadamente cosmopolita
e inerente savoir-faire - fosse a marca de água da Corporação: o secular
convívio com outros povos e sociedades, a abertura a novas realidades com o
conhecimento de novos horizontes e, mais contemporaneamente, a participação em
Organizações Internacionais Militares, como a NATO, à qual aderimos desde a
primeira hora, há mais de sete décadas, privando assim com sociedades das mais
evoluídas do primeiro mundo, aprendendo muito mas igualmente afirmando os
valores e características que nos identificam e referenciam.
E não será
por acaso, mas garantidamente consequência
da idiossincrasia do Ramo do
botão de âncora, que existe em Portugal uma organização ilustre e prestigiada,
a AORN (Associação de Oficiais da Reserva Naval), prosseguindo os mesmos
valores e integrando um significativo número daqueles que durante quase 2
décadas, no cumprimento do seu serviço militar, escolheram a Marinha para
ajudar, de forma brilhante, na gesta de África e continuando, ao longo dos
tempos, a “defender a Marinha, Portugal e o Mar”, conforme rezam os seus
Estatutos.
É
neste contexto de dimensão social que introduzo o fenómeno das praxes, prática
generalizada na instituição naval, desde o início da carreira do militar,
passando por situações específicas frequentemente associadas a locais distantes
da metrópole europeia.
A
minha visão e, também, a minha experiência nesta área de relacionamento social
impelem-me para, de forma inquestionável, assumir que em regra a existência e a
prática das praxes com que convivi foram uma mais-valia para a Marinha, para os
seus órgãos e, principalmente, para as pessoas, os militares envolvidos. Fê-los
crescer, estruturar princípios, valorizar as relações pessoais, assumir
comportamentos ajustados à profissão (como se sabe, muito baseada neste tipo de
valores) e reconhecer linhas vermelhas a
não ultrapassar.
Comigo,
foi esta a realidade. E sei que muitos outros (naturalmente, da minha geração) comungam desta avaliação.
Claro
que, desde sempre, se verificaram desvios à boa prática das praxes; mas,
igualmente, existiam mecanismos de controlo e supervisão que, em tempo
oportuno, os corrigiam ou eliminavam. A Escola Naval é um bom exemplo disso
mesmo: o “Comodoro” da praxe, cadete do último ano, eleito pelos seus pares,
intervinha de motu proprio, ou quando
solicitado, em defesa dos sãos princípios daquela prática.
Não se
pode também ignorar a imagem que as praxes têm, hoje, junto dos portugueses.
Todos sabemos que tal juízo muito negativo resulta de cenas aberrantes,
grosseiras, algumas roçando a obscenidade, visando objectivos de exibicionismo
alarve, para alimento de certas redes ditas “sociais”, com que alunos de alguns
estabelecimentos de ensino superior nos têm brindado
ao longo dos últimos anos e a que os verdadeiros responsáveis vão reagindo
com preocupante indiferença, não actuando por forma a acabar com essas poucas
vergonhas no espaço público, antes as tolerando de forma cúmplice.
Fica, portanto,
evidente que acabámos de falar de realidades totalmente diferentes.
Em
Moçambique, a partir de meados dos anos 60 do século passado, a Marinha passou
a dispôr de uma Base Naval em Metangula, na margem leste do lago Niassa, a cerca
de 100 km da cidade de Vila Cabral (agora Lichinga), ponto terminal da célebre
linha do “combóio do Catur”, via ferroviária que transportou de Nacala para o
interior milhares de militares dos 3 ramos das Forças Armadas.
A Base
de Metangula, criada na povoação de Augusto Cardoso, foi um importante
instrumento de acção da Marinha na extensa área da parte portuguesa do Lago
Niassa. Ocupando a península de Metangula, fronteira ao monte Tchifuli, gozava
de enorme autonomia, dispunha de instalações magníficas e de todo o equipamento
necessário, não esquecendo as necessidades de lazer das guarnições e famílias
(estas, alojadas em habitações no exterior da Base), acolhendo várias centenas
de militares e civis, em condições invejáveis, atendendo ao padrão geral das
estruturas militares nacionais à data, em África. Tinha, como vectores de
projecção, mais de uma dezena de meios navais, entre Lanchas de Fiscalização e
Lanchas de Desembarque, Médias e Pequenas. E, tendo como “vizinhos” uma unidade
do Exército (o comando do Batalhão de Caçadores atribuído àquela zona),
disponibilizava-lhes o apoio logístico necessário, fornecendo a energia
eléctrica às instalações.
É
então com base nesta estrutura da Marinha que se esboça o que, durante os 2
primeiros anos da década de 70, foi o guião-tipo
de “recepção” aos oficiais checas (ou
maçaricos…) quando se apresentavam em
rendição individual.
Normalmente,
o visado chegava via aérea a Vila Cabral, vindo da Beira; de Metangula, saía um
oficial, acompanhando o piloto num pequeno avião da Marinha, um monomotor Cessna
182 de 4 lugares (em termos formais, pertencente ao Aeroclube de Metangula…)
para a adequada recepção do novo elemento.
Ao
recém-chegado era sugerido que adquirisse, numa pastelaria da cidade, pastéis
de nata para o jantar desse dia, na Messe. No aeroporto, seguia-se então o
embarque no Cessna, que, após autorização, se dirigia ao limite da pista para
iniciar a descolagem. Mas, antes, ainda com o avião imobilizado, o piloto ia
fazendo perguntas comprometedoras ao oficial acompanhante, tipo “este botão,
aqui no tablier, é para cima ou para baixo? E os flaps, como é que funcionam”?
A tudo
isto, o pobre do visado assistia, no banco traseiro do avião, com crescente
preocupação (entretanto, e ainda antes do embarque e aproveitando uma “suposta”
distracção do piloto, já tinha sido informado pelo acompanhante que este era pouco
hábil e quase estreante na função, tinha mesmo tido um pequeno acidente na
semana anterior, mas “se Deus quiser, há-de tudo correr bem”).
Iniciada
a descolagem, o piloto “comia” metade da pista, sem conseguir tirar o avião do chão; com alguns impropérios à mistura,
lá o fazia subir um pouco, mas para logo de novo o deixar cair. E o pobre, cada vez mais nervoso…até que,
quase no fim da (extensa) pista, o avião finalmente descolava e subia.
Iniciado
o trânsito (curto, de cerca de meia hora), as vicissitudes não diminuíam; já no
terço final da rota, o avião, ao ultrapassar a cordilheira de Maniamba
(altitude aproximada de 1800 metros), voava próximo do topo das elevações, induzindo uma proximidade preocupante
para os novatos; nessa altura, o piloto descontraidamente informava que,
recentemente, ali tinha sido atacado, tendo escapado por pouco…e o
recém-chegado afundava cada vez mais no banco traseiro, passando a ostentar um
visual de tom amarelado.
Na preparação
para a aterragem na pista de Metangula - esta, sim, curta (menos de 1000
metros), de terra batida, embora permitisse a operação de Dakotas, começava e
terminava nas águas do Lago - o quadro agravava-se
sobremaneira; já na aproximação, o piloto voltava a questionar o parceiro do
lado sobre vários elementos técnicos, demonstrando
grande desconhecimento sobre a execução da manobra. Como, naturalmente, o
questionado não sabia responder, tal “obrigava” a um contacto de emergência (que
só existia para o recém-chegado) com a torre de controlo, em que as perguntas
mais “estranhas” eram feitas e as respostas passadas ao piloto, que actuava em conformidade.
Com a
“vítima” já praticamente desfeita, ainda lhe era pedido que tivesse cuidado com
a caixa dos pastéis de nata, não fosse cair com os solavancos e as manobras
bruscas que estavam a ocorrer…algumas vezes, a reacção do “desgraçado”, em
total desespero, era a de, com expressões aqui irreproduzíveis, informar que
“queria lá saber” dos bolos…
Finalmente,
após borregar duas ou três vezes, aumentado o nível já extremo de pânico do
novo elemento, o avião lá pousava na pista.
Mas os
problemas estavam ainda longe de terminar: infelizmente,
o motor do Cessna parava antes de atingir o hangar, onde também estava a equipa
de boas-vindas ao novo membro; então,
como é que era possível chegar ao destino? A solução era simples: com o piloto
dentro do avião, este era empurrado pelo recém-chegado até ao final (às vezes, cerca
de cem metros…). Aí, para além do pessoal da sua nova Unidade, estava o
“agente” da Pide/DGS...mas com funções alargadas,
como a seguir se verá.
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O Padre e o Agente
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Este
personagem, sempre de poucas falas e com semblante patibular, começava por lhe
aplicar uma multa, por ter chegado depois da hora limite, que era sempre
“definida” em conformidade (essa multa, à qual o pagante por vezes reagia,
alegando que tal facto não era da sua responsabilidade – argumento liminarmente
rejeitado -, revertia para o bar da
Messe de Oficiais); em seguida, era feita uma rigorosa “inspecção” aos seus
pertences, num tom ameaçador e provocatório, sendo-lhe apreendidos todos os
livros, por suspeita de conterem propaganda subversiva e até o pó branco, para
aplicação nos sapatos da farda, ficava retido por suspeita de poder ser droga…
Entretanto, o “agente” informava-o, mantendo o ar ameaçador, que o material
retido lhe seria devolvido no dia seguinte, caso não se confirmassem as
suspeitas levantadas…
Iniciava-se,
de seguida, a viagem (curta, cerca de 450 metros) para a Base. Mas, ainda antes
da sua instalação, o recém-chegado era conduzido à enfermaria, com o objectivo
de “tomar a vacina contra o paludismo” e efectuar um exame médico para
“aquilatar” da sua disponibilidade física…
Aí era
recebido pelo “enfermeiro”, cargo exemplarmente “desempenhado”, à época, por um
Comandante de Lancha do Malawi, que envergava uma bata de aspecto abominável:
sujíssima, com nódoas tipo sangue, rôta, a criar um quadro inenarrável.
O
“profissional” de saúde começava por ministrar ao “paciente” a dita “vacina”,
na dose de uma colher e que não era mais de que um conhecido laxante, que
produziria os seus efeitos nas horas seguintes; depois, pedia-lhe para subir (e
descer) de uma cadeira umas dezenas de vezes, medindo-lhe a tensão de forma
muito pouco convincente…
Já
meio esmagado por estes acontecimentos,
era então conduzido ao alojamento.
Chegada
a hora do jantar na Messe de Oficiais, na qual tinha também lugar o temido
“agente” da Pide/DGS, eram-lhe passadas as instruções quanto ao cuidado a ter
com esse indivíduo (situações houve em que o desafortunado, quando o via entrar na Messe e ainda indignado com
as cenas ocorridas à saída do avião, pretendia reagir, do que era prontamente
dissuadido, pelas “graves implicações” que daí poderiam ocorrer…
Antes
de se iniciar a refeição, o “padre” iniciava uma reza, com fraseologia pouco
convencional, à qual os comensais correspondiam com o ar mais convicto e crente
deste mundo; o novo membro, muito baralhado, tentava integrar-se no grupo, acompanhando
com dificuldade os rituais daquela
“estranha” prática religiosa…
Depois
do jantar, o cenário mantinha-se até ao fim do serão, com os novos camaradas a
agradecer a gentileza dos bolos, mas sempre com o “agente” da Pide/DGS a visar
o neófito com um ar desconfiado e hostil…
Quando
se tratava de um novo Comandante de Lancha, o programa sofria uma “change”: após o fim da refeição e do
convívio, o Comandante cessante e o novo dirigiam-se já noite fechada ao cais,
embarcando na Lancha, porque era necessário cumprir uma missão que não tinha
sido possível adiar; claro que essa missão tinha obviamente que ser agitada q.b.: ainda o navio não tinha saído da baía iniciava-se um “feroz”
ataque a partir da margem, com fogo nutrido que rompia o escuro da noite,
ecoava no Tchifuli e provocava a maior das confusões e “pânico” a bordo.
Depois
de o Comandante “conseguir escapar” desta cilada
sem baixas ou danos materiais, a Lancha regressava à Base, com o protagonista deste longo dia totalmente
“impróprio para consumo”…
Terminada
a jornada, era o momento para, finalmente, deixar o novo elemento recolher ao
seu quarto para descansar e recuperar de tudo o que tinha vivido.
Nalguns
casos e quando a chegada a Metangula ocorria mais próximo da hora do jantar, o
programa era adaptado, eliminando-se
algumas das cenas descritas e incluindo uma outra: para não atrasar a refeição,
o recém-chegado, com a bagagem, era conduzido directamente à Messe; a meio do
jantar, o Despenseiro aparecia, com ar compungido, a comunicar que tinha surgido
uma situação inopinada e que não era possível disponibilizar, para aquela noite,
instalações para o sr. Tenente…pelo que já tinha colocado uma cama no hall de uma das residências, junto à
porta para o exterior, onde ele teria que passar a noite; e igualmente o
alertava para o perigo decorrente de uma cobra (das mais venenosas, claro) que
andava por ali e ainda não tinha sido apanhada…
E a
primeira noite terminava mesmo assim…
Mas
havia sempre o day after e, manhã
cedo, tempo das formaturas para serviços, quando o mal refeito “novo membro” se
dava conta de que o execrável “agente
da Pide/DGS” estava agora, ou a comandar uma Unidade de Fuzileiros, ou um
Serviço, ou, ainda a Esquadrilha de Lanchas, e que o padre, afinal, tinha subitamente perdido a vocação e assumido uma carreira militar laica, começava na sua cabeça a desconstrução da “realidade virtual”
vivida no dia anterior e o início do conhecimento do mundo que o acolheria a partir de então.
E
começava igualmente, para o visado, uma nova fase da sua vida militar, intensa,
respaldada nos valores induzidos no início deste texto – o respeito por cada
um, a sã camaradagem, o convívio social aberto, o “bom senso” naval – cujos
efeitos, regra geral, perduraram nos tempos que se seguiram e cujas marcas ainda hoje são visíveis.